segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ENTRE MEGAPROJETOS, PAIXÕES PESSOAIS E A AUSÊNCIA DE FREIOS INSTITUCIONAIS


Maricá ocupa hoje uma posição singular no cenário nacional. Com um orçamento anual próximo de R$ 7 bilhões e uma arrecadação bilionária proveniente dos royalties do petróleo, o município dispõe de recursos que rivalizam com cidades muito maiores. A questão central, porém, não é a abundância de dinheiro, mas como e sob quais critérios esse dinheiro vem sendo utilizado.

Nos últimos anos, uma sucessão de decisões administrativas de grande impacto financeiro, muitas delas adotadas sem licitação e com debate público limitado, vem levantando questionamentos sobre transparência, prioridades e mecanismos de controle na gestão do prefeito Washington Quaquá.

CARNAVAL, ACIDENTE E REPERCUSSÃO NACIONAL

Na madrugada de 15 de fevereiro de 2026, durante o desfile da Série Ouro na Marquês de Sapucaí, um carro alegórico da escola União de Maricá perdeu o controle e atropelou integrantes da equipe de apoio. O veículo desfilava com as luzes apagadas. Ao menos cinco pessoas ficaram feridas. Uma delas, Itamar de Oliveira, de 65 anos, sofreu fraturas expostas nas duas pernas e precisou ser submetida a cirurgia de emergência no Hospital Municipal Souza Aguiar. Pouco depois, outra alegoria da mesma escola pegou fogo na dispersão.

O episódio teve ampla repercussão nacional e, segundo informações divulgadas pela imprensa, deverá ser apurado pelas autoridades competentes. Após o acidente, o prefeito Washington Quaquá manifestou solidariedade aos feridos em declarações públicas.

Dias depois, com a apuração consagrando a União de Maricá campeã da Série Ouro e garantindo acesso ao Grupo Especial em 2027, o prefeito comemorou o resultado. Em declaração registrada, afirmou: “Isso não tem preço. O que isso traz de marketing para Maricá”.

A União de Maricá foi criada em 2015, durante o segundo mandato de Quaquá, que figura como presidente de honra da escola. Embora o prefeito não tenha responsabilidade operacional direta sobre o desfile, a ligação política e institucional com a agremiação desperta questionamentos sobre prioridades administrativas e o uso de recursos públicos.

A COMPRA DE UMA FAZENDA SEM LICITAÇÃO...

Nesta semana, reportagem do portal Tempo Real RJ revelou que a Codemar, empresa pública de desenvolvimento de Maricá, autorizou a compra direta, sem licitação, de um imóvel rural com cerca de 173 mil metros quadrados, localizado em Cachoeiras de Macacu, pelo valor de R$ 7 milhões.

O imóvel pertence ao ex-jogador do Vasco da Gama, Bismarck Barreto Faria. Segundo anúncios imobiliários anteriores, propriedades com características semelhantes na região chegaram a ser ofertadas por valores inferiores.

A prefeitura informou que o imóvel seria destinado à implantação de um abrigo para mulheres vítimas de violência, que a compra ainda não foi concluída e que laudos técnicos justificariam o valor. O endereço não foi divulgado por razões de segurança.

O contexto da negociação, no entanto, chama atenção. Meses antes, o mesmo ex-jogador havia sido escolhido pelo prefeito como intermediário em uma tentativa de negociação para a compra da SAF do Vasco da Gama com recursos do fundo soberano do município. A sucessão de fatos levou especialistas e veículos de imprensa a apontarem a necessidade de maior transparência.

NOVA FRENTE INVESTIGATIVA: A FAZENDA CENTENÁRIA EM TRÊS RIOS.

Além do caso de Cachoeiras de Macacu, outra aquisição rural envolvendo recursos públicos passou a ser objeto de investigação jornalística.

O jornalista Marcelo Cerqueira conduz uma reportagem investigativa sobre a compra de uma fazenda centenária localizada na região de Bemposta, no município de Três Rios. Segundo fontes apuradas pelo jornalista, o imóvel teria sido avaliado em mais de R$ 20 milhões.

De acordo com publicações feitas pelo próprio prefeito de Maricá em redes sociais, no local estaria previsto o desenvolvimento de um projeto empresarial de alto padrão. Ainda segundo essas manifestações públicas, a iniciativa teria à frente a esposa do prefeito, apontada por ele como responsável por demonstrar “potencial empresarial” na administração do Camarote Favela, na Marquês de Sapucaí, empreendimento que, segundo o prefeito, teria obtido retorno financeiro significativo.

Ainda conforme o jornalista Marcelo Cerqueira, sua investigação o levou a outras propriedades rurais na mesma região. Uma delas seria uma fazenda voltada à criação de gado de corte, que teria sido adquirida por um vereador. A ligação entre os negócios teria surgido incidentalmente durante o aprofundamento da apuração sobre a Fazenda Bemposta.

O jornalista afirma possuir registros audiovisuais obtidos com o uso de drone profissional, equipamento que permite captação de imagens a longa distância sem interferência direta no ambiente monitorado. Segundo ele, o material reunido tem potencial para ampla repercussão pública e integra uma investigação ainda em curso.

Marcelo Cerqueira (do jornal NA PAUTA) também relata que apura informações sobre outra aquisição, apontada por fontes preliminares como sendo tratada oficialmente como “fazenda”, mas que, segundo moradores da região, sempre foi conhecida como um sítio. Informações ainda não confirmadas indicam que cerca de R$ 8 milhões em recursos públicos teriam sido utilizados na negociação. O caso segue sob apuração jornalística.

A TENTATIVA DE COMPRAR O VASCO COM RECURSOS DO MUNICÍPIO.

Em abril de 2025, em entrevista ao jornal O Globo, o prefeito anunciou publicamente a intenção de apresentar uma proposta para aquisição da SAF do Vasco da Gama utilizando recursos do fundo soberano de Maricá, estimado à época em cerca de R$ 2 bilhões. Posteriormente, mencionou a possibilidade de aportes que poderiam chegar a R$ 3 bilhões.

A proposta não avançou, mas provocou repercussão nacional e abriu debate sobre os limites do uso de recursos públicos municipais em investimentos ligados ao futebol profissional.

PROJETOS ARQUITETÔNICOS, RESORTS E ACORDOS INTERNACIONAIS.

Em março de 2025, a prefeitura firmou contrato de R$ 73,6 milhões para a aquisição de projetos arquitetônicos do escritório de Oscar Niemeyer. Para a execução das obras, a estimativa ultrapassa R$ 3 bilhões.

Somam-se a isso acordos com o complexo turístico Maraey e cartas de intenção assinadas em feiras internacionais para a construção de hotéis de luxo em Maricá, com previsão de aportes públicos bilionários.

O PAPEL DA CÂMARA MUNICIPAL...

Diante de decisões de alto impacto financeiro, a atuação da Câmara Municipal de Maricá tem sido alvo de questionamentos. Cabe ao Legislativo fiscalizar o Executivo, exigir transparência e promover o debate público. Até o momento, grande parte das iniciativas foi aprovada sem ampla participação da sociedade civil.

UMA QUESTÃO INSTITUCIONAL

Maricá é um município rico. Mas riqueza sem controle institucional efetivo representa risco. Os fatos revelam um padrão de decisões concentradas, com participação social limitada e forte impacto financeiro.

Não se trata de afirmar ilegalidades sem apuração conclusiva. Trata-se de levantar questionamentos legítimos, baseados em informações públicas, investigações jornalísticas em curso e reportagens verificáveis, sobre critérios, prioridades e transparência no uso de recursos que pertencem à população.

A pergunta permanece institucional: quem fiscaliza o poder quando o dinheiro é abundante e os freios parecem frágeis?

Maricá merece respostas. E a sociedade tem o direito de cobrá-las.

republicação de matéria da redação da TVC web com informações extraídas do jornal NA PAUTA e imagens do arquivo do jornal Barão de Inohan