Quaquá convida Silvio Almeida para pensar o Brasil a partir de Maricá e para coordenar museu sobre a contribuição africana. Iniciativa articula projeto intelectual, memória histórica e construção de um novo ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros).
O prefeito de Maricá, Washington Siqueira (o Quaquá), anunciou um movimento 'estratégico' de grande alcance político e intelectual (???) ao convidar o jurista e filósofo Silvio Almeida para atuar na cidade em dois eixos fundamentais: discutir a soberania e a economia nacional a partir de uma futura universidade local, tendo a questão racial como um dos pontos a ser tratado pela iniciativa. Em postagem recente, o prefeito destacou a relevância do convite e o simbolismo da iniciativa, afirmando: “Será uma grande honra ter um intelectual do calibre do amigo Silvio Almeida com a gente aqui em Maricá.”Segundo o prefeito, o convite inclui a liderança do Museu da Escravidão Negra no Atlântico e da contribuição Africana ao Brasil e ao Mundo anunciado pelo prefeito em sua viagem para Lisboa em 2025, além da colaboração na construção da UniMar (Universidade do Mar), projeto anunciado ainda em 2022, em Maricá, mas que ainda não saiu do papel, como (quase) TODOS OS PROJETOS DO UTÓPICO PREFEITO.
A proposta vai além de um projeto acadêmico ou cultural isolado: trata-se de posicionar Maricá como um novo polo de pensamento estratégico brasileiro, capaz de articular memória histórica, produção de conhecimento e formulação de políticas públicas com impacto nacional.
O convite ocorreu durante um encontro entre Almeida e Quaquá em São Paulo no domingo (12/04). Em uma publicação compartilhada na redes sociais, o prefeito classificou Silvio como "o grande intelectual da negritude e da periferia brasileira". O encontro também contou com as presenças do arquiteto e empresário Alex Allard e do líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) João Paulo Rodrigues.
Maricá como laboratório de um novo projeto nacional
A iniciativa surge em um momento em que o Brasil busca redefinir seus rumos após avanços sociais importantes, mas ainda sem um projeto de longo prazo plenamente consolidado. Nesse contexto, a ideia de reunir grandes intelectuais para pensar o país ganha centralidade — e é justamente aí que entra a proposta de criação de um novo ISEB (Instituto Superior de Estudos Brasileiros).
O ISEB original, criado em 1955, foi um dos mais importantes centros de pensamento estratégico da história do Brasil. Reunindo intelectuais como Hélio Jaguaribe, Guerreiro Ramos e Ignácio Rangel, o instituto formulou as bases do nacional-desenvolvimentismo, defendendo a industrialização, a soberania econômica e o papel ativo do Estado na superação do subdesenvolvimento. Funcionando como um verdadeiro laboratório de ideias, influenciou diretamente o debate público e políticas de governo no período pré-1964, até ser extinto após o golpe militar, em um movimento que interrompeu um dos mais ambiciosos esforços de formulação de um projeto nacional no país.
Um novo ISEB com a questão racial no centro
Silvio Almeida, um dos principais pensadores contemporâneos sobre racismo estrutural, democracia e Estado, pretende liderar a articulação de um espaço semelhante ao histórico ISEB, mas com uma atualização decisiva: o envolvimento da questão racial. Diferentemente do instituto original, que priorizou o desenvolvimento econômico e a soberania nacional sem enfrentar plenamente as desigualdades raciais, a nova proposta busca integrar esses elementos em um mesmo eixo estratégico.
A proposta de um novo ISEB representa, assim, uma inflexão histórica no pensamento brasileiro. Ao incorporar o racismo como elemento estruturante da desigualdade, o projeto amplia e aprofunda o legado do instituto original, conectando desenvolvimento econômico, justiça social e democracia em uma mesma agenda.
Museu da escravidão e da contribuição africana
Outro pilar da iniciativa é a criação do museu dedicado à escravidão no Atlântico e à contribuição africana. O projeto pretende não apenas resgatar a memória histórica, mas também reposicionar o papel da população negra na formação do Brasil e do mundo.
A proposta dialoga com experiências internacionais de museus de memória, mas com um enfoque ampliado: não apenas registrar a violência da escravidão, mas também valorizar as contribuições culturais, econômicas e civilizatórias africanas. Trata-se de um movimento de reconstrução simbólica e histórica, fundamental para a construção de uma identidade nacional mais consciente e inclusiva.
UniMar e a formação de novos quadros
A criação da UniMar (projeto de 2022 que ainda não saiu do papel como a grande maioria dos projetos do utópico prefeito de Maricá) surge como base institucional para esse novo ciclo. A universidade pretende formar quadros capazes de pensar o Brasil de forma estratégica, combinando excelência acadêmica com compromisso social e nacional.
Ao articular universidade, centro de pensamento e projeto cultural, Maricá busca reproduzir — em chave contemporânea — o papel que o ISEB desempenhou no passado, mas com uma agenda mais ampla e alinhada aos desafios do século XXI.
Um movimento estratégico de longo alcance
A iniciativa liderada por Quaquá e abraçada por Silvio Almeida aponta para algo maior do que projetos isolados. Trata-se da tentativa de reconstruir a capacidade do Brasil de pensar a si mesmo de forma soberana e estratégica, algo que foi profundamente afetado após 1964.
Ao convidar Silvio Almeida, Quaquá não apenas reforça o compromisso de Maricá com políticas inovadoras, mas também posiciona o município como um espaço privilegiado para a formulação de ideias que podem influenciar o futuro do Brasil. Em um momento de redefinição histórica, a criação de um novo ISEB, agora com a questão racial no centro, surge como uma das iniciativas mais promissoras para recolocar o país no caminho de um projeto nacional robusto, inclusivo e de longo prazo.
Denúncias de assédio envolvendo Silvio Almeida
Almeida foi demitido da pasta dos Direitos Humanos em setembro de 2024, após denúncias de assédio sexual. Na ocasião, a organização Me Too Brasil confirmou o recebimento de denúncias contra ele. Uma das vítimas relatadas foi a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco.
O ex-ministro também foi indiciado pela PF (Polícia Federal) e denunciado pela PGR. Na denúncia, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirma que as provas levantadas durante a investigação corroboram o relato de Anielle.
Silvio Almeida nega todas as acusações. Ele alegou que as denúncias foram utilizadas para afastá-lo da vida política e criticou o que chamou de "linchamento público".
Ele também declarou que houve uso indevido de uma “causa importante”, em referência ao combate à violência contra mulheres, para sustentar acusações que seriam falsas.
Almeida ainda questionou a forma como as denúncias vieram a público e disse que não foram apresentadas, até o momento, informações que permitam comprovar a veracidade das alegações.