MULHERES PASSAM POR VERDADEIROS ESCALPOS PARA TIRAR CNH
Kimberly Crivi entrou em uma clínica credenciada pelo Detran, em Porto Velho, Rondônia, para cumprir mais uma etapa do processo de obtenção da primeira Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Até aquele momento, ela nem sequer sabia que precisaria cortar o cabelo.Ao chegar ao local, Kimberly descobriu que o exame toxicológico seria realizado a partir de fios retirados da cabeça. O que deveria ser um procedimento simples terminou, segundo ela, com uma falha visível próxima à raiz.
O caso não é isolado.
Mulheres têm utilizado as redes sociais para relatar cortes que consideram excessivos durante a coleta de material para o exame toxicológico. Fotos e vídeos mostram falhas aparentes no cabelo e levantam uma dúvida entre candidatos à habilitação: afinal, quanto cabelo realmente precisa ser retirado?
Foto após o exame revelou o “buraco”
A experiência de Kimberly começou a causar estranhamento antes mesmo do corte.
Ao se sentar para realizar o procedimento, ela afirma ter encontrado cabelos espalhados pelas laterais da poltrona.
Segundo Kimberly, o profissional responsável explicou que retiraria uma quantidade equivalente à espessura de uma caneta Bic.
Depois da coleta, porém, ela resolveu fotografar a própria cabeça para conferir o resultado. Foi quando percebeu a falha.
Ao questionar o funcionário, ouviu que ele costumava retirar “um pouquinho a mais” caso surgisse algum problema com o material.
A preocupação de Kimberly não ficou restrita à quantidade de cabelo perdida. A jovem também passou a questionar as condições em que a coleta havia sido realizada.
Outra mulher precisou cortar o cabelo duas vezes
Agatha Riesky passou por uma experiência semelhante.
Durante o procedimento, percebeu que uma quantidade que considerava grande estava sendo retirada e perguntou às profissionais por que era necessário cortar tanto.
Segundo Agatha, a resposta foi de que aquela era a quantidade necessária. As funcionárias ainda teriam oferecido devolver os fios cortados.
O problema, no entanto, não terminou ali.
Além da falha deixada no cabelo, Agatha afirma que precisou retornar ao estabelecimento para realizar uma segunda coleta. A justificativa apresentada teria sido de que o material retirado na primeira vez não havia sido localizado.
Na repetição do procedimento, algo chamou sua atenção.
Experiências como as de Kimberly e Agatha começaram a encontrar eco nas redes sociais, onde outras mulheres passaram a publicar imagens de falhas que atribuem à coleta do exame toxicológico.
Retirar uma grande mecha, porém, não deveria ser a regra.
Quanto cabelo realmente precisa ser retirado?
Apesar das imagens de grandes falhas relatadas por algumas mulheres, a coleta para o exame toxicológico não deveria exigir a retirada de uma grande mecha de cabelo. Na prática, utiliza-se uma pequena quantidade de fios, cortados o mais próximo possível do couro cabeludo.
Como o exame trabalha com uma janela retrospectiva mínima de 90 dias, normalmente são analisados cerca de 3 centímetros de cabelo a partir da raiz.
A regulamentação do Contran determina ainda a coleta de duas amostras, uma destinada ao exame e outra à eventual contraprova. O procedimento deve priorizar a região posterior da cabeça e os fios precisam ser escolhidos abaixo de uma mecha previamente separada justamente para que o corte não deixe falhas visíveis.
Quando não há cabelo disponível no comprimento necessário, pelos corporais podem ser utilizados como alternativa. Assim, o procedimento correto não exige raspar a cabeça nem deveria resultar nos “buracos” aparentes denunciados por algumas mulheres.
Técnica ajuda a evitar falhas aparentes
A forma como os fios são retirados também é importante.
A coleta deve ser feita com tesoura, evitando o uso de lâminas, aparelhos de barbear ou máquinas para retirar o material.
Existem situações específicas em que uma quantidade maior de cabelo pode ser necessária. Isso pode acontecer, por exemplo, quando a pessoa tem fios muito finos, baixa densidade capilar, cabelos quebradiços ou passou por procedimentos químicos que reduziram a quantidade de material aproveitável para a análise.
Essas situações, no entanto, não deveriam ser descobertas somente depois do corte.
Quando existe a necessidade de retirar uma quantidade maior de fios, a pessoa deve ser informada antes da coleta.
Por que o exame toxicológico usa cabelo?
O exame toxicológico exigido para a habilitação é diferente de testes destinados a identificar apenas o consumo recente de determinadas substâncias.
Segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), trata-se de um exame de larga janela de detecção. A análise permite uma retrospectiva mínima de 90 dias para verificar o consumo, ativo ou não, de substâncias psicoativas.
Para isso, podem ser utilizadas amostras de cabelos ou pelos. Na ausência desses materiais, a regulamentação admite o uso de unhas mediante laudo médico de dermatologista que comprove alopecia universal.
A utilização dos fios está relacionada à possibilidade de identificar substâncias e seus metabólitos incorporados à estrutura capilar durante o crescimento, ampliando o período que pode ser analisado.
Exame também passou a ser exigido na primeira CNH
O número de candidatos sujeitos ao procedimento aumentou após uma mudança na legislação.
Historicamente, o exame toxicológico de larga janela de detecção estava associado principalmente aos condutores das categorias C, D e E, destinadas a diferentes tipos de veículos de carga, transporte de passageiros e combinações de veículos.
A Lei Federal nº 15.153/2025 alterou o Código de Trânsito Brasileiro e estendeu a exigência de resultado negativo no exame toxicológico à obtenção da primeira habilitação nas categorias A e B, destinadas, respectivamente, a motocicletas e automóveis.
O dispositivo havia sido vetado inicialmente, mas o veto foi derrubado pelo Congresso Nacional em dezembro de 2025, fazendo com que a exigência fosse incorporada à legislação.
O procedimento deve ser realizado em laboratório credenciado pela Senatran.
É possível fazer o exame sem cortar o cabelo da cabeça?
Sim, desde que exista material adequado para a análise.
Além do cabelo, pelos de outras regiões do corpo podem ser utilizados no exame toxicológico, desde que exista quantidade suficiente para a realização do teste.
Na prática, porém, essa alternativa nem sempre resolve o problema.
Patricia explica que muitas mulheres não apresentam quantidade suficiente de pelos corporais para fornecer uma amostra adequada. Nessas situações, os fios da cabeça acabam sendo a opção mais indicada.
Independentemente do local escolhido, a coleta precisa seguir os procedimentos adequados e fornecer material suficiente para a análise.
“Buraco” no cabelo pode gerar indenização?
Uma falha visível depois da coleta não significa automaticamente que haverá direito a uma indenização. Cada caso precisa ser analisado individualmente.
Uma eventual indenização pode ser discutida quando houver elementos capazes de demonstrar que o dano ocorreu em razão de uma atuação inadequada da clínica ou do profissional responsável pela coleta.
Caso a retirada excessiva provoque uma falha evidente, constrangimento, alteração relevante da aparência ou repercussões na vida pessoal e profissional, podem entrar em discussão danos materiais e morais e, dependendo das circunstâncias, dano estético.
Isso não significa, entretanto, que qualquer insatisfação com o procedimento resulte automaticamente em indenização.
Será necessário demonstrar que houve uma conduta inadequada, que o prejuízo efetivamente existiu e que há relação entre a atuação da clínica e o dano.
Mas os casos e reclamações se multiplicam por todo o país. Recentemente uma das mulheres que passou pelo constrangimento, fez matéria para Record. A atriz e cantora Hadassa Mazarrão relatou o absurdo que passou. Confira: