A imagem satírica que criamos de Maricá governada como um feudo ganha contornos reais e preocupantes quando observamos a dinâmica das exonerações em massa na máquina pública do município. Na política contemporânea de Maricá, a caneta do mandatário atua com a mesma força arbitrária da espada de um senhor feudal, cortando cabeças administrativas não por critérios de competência ou eficiência, mas por puro desalinhamento de lealdade servil.
As recentes ondas de exonerações na prefeitura — que atingiram dezenas de cargos comissionados, inclusive desestruturando secretarias e esvaziando o gabinete do próprio vice-prefeito — expõem o lado mais arcaico do fisiologismo. O episódio, motivado por um racha interno no partido governante devido à disputa de candidaturas para as eleições legislativas, deixa claro que a máquina pública e o orçamento bilionário da cidade são tratados, muitas vezes, como propriedade particular da corte governante.
A máquina pública como moeda de troca
No feudalismo clássico, o senhor distribuía terras (feudos) para garantir o apoio de seus vassalos em tempos de guerra. Em Maricá, os cargos públicos comissionados parecem funcionar sob a mesma lógica: são distribuídos em troca de apoio político e eleitoral.
Quando o vassalo ousa contrariar os interesses da dinastia reinante — como apoiar um candidato concorrente ao do grupo principal —, a punição é imediata. A canetada que exonera dezenas de servidores de uma só vez funciona como um ato pedagógico de intimidação: um recado claro de que, no feudo, a discordância é cobrada com o desemprego e o ostracismo político.
O impacto no cidadão comum
O aspecto mais crítico dessa governança "feudal" é que o prejuízo real recai sobre os ombros dos cidadãos. Cada secretaria desestruturada e cada servidor experiente exonerado por picuinha partidária representam uma interrupção na continuidade de serviços públicos essenciais. Políticas de saúde, educação, transporte e assistência social ficam à mercê das oscilações de humor e dos interesses eleitorais da elite política.
Tratar uma das cidades que mais arrecada royalties de petróleo no país como um "curral eleitoral" ou um feudo privado é um retrocesso civilizatório. Enquanto a máquina administrativa for usada como ferramenta de vingança e chantagem política, a promessa de uma cidade moderna e verdadeiramente republicana continuará aprisionada nas amarras da Idade Média.
Texto: Priscilla Motta de Queiros (Advogada, com atuação em direito público administrativo e criminal. Assessora Parlamentar, palestrante e escritora apaixonada por política)




























































