A MARICÁ QUE O MARKETING NÃO CONSEGUE MAIS ESCONDER
Um jovem motoboy disse em dois minutos o que milhões em publicidade tentam calar
São 20 horas de uma quinta-feira. O gabinete virou cenário, os vereadores viraram figurantes e Washington Quaqua entrou em cena no papel mais ensaiado de sua vida pública: o gestor incansável, o que trabalha quando o povo dorme, o que pensa no trabalhador enquanto a cidade para.
O anúncio da vez: motos elétricas para 2 mil entregadores, táxis elétricos, 14 pontos de apoio com ar-condicionado, café e carregamento tudo financiado a juros zero pelo Banco Mumbuca.
E para dar sabor ao roteiro, aproveitou o palco para atacar o legado do antecessor Fabiano Horta, classificando o PPT programa que ajudou centenas de trabalhadores maricaenses a construir seus próprios negócios como dinheiro desperdiçado, recurso que, nas palavras do próprio prefeito, “ia para fora” e não servia ao povo.
Foi o gatilho que faltava.
Um jovem motoboy, sem assessoria, sem palanque e sem roteiro, pegou o celular e devolveu ao Instagram do prefeito a única coisa que nenhum real de publicidade consegue editar: a verdade de quem vive Maricá todos os dias.
O que Quaqua destruiu e tentou fazer o povo esquecer…
O PPT foi criado pelo ex-prefeito Fabiano Horta para estimular a produção dos microempreendedores individuais e garantir direitos como férias e décimo terceiro para trabalhadores informais e seu fim gerou indignação imediata, com beneficiários organizando abaixo-assinado e protestos nas ruas.
O programa chegou a ser destaque na imprensa nacional, reconhecido como iniciativa inovadora e replicável por estados e municípios de todo o Brasil. Era a Maricá real ajudando gente real MEIs, autônomos, trabalhadores invisíveis que o poder público raramente enxerga.
Quaqua extinguiu o PPT e contabilizou a economia como parte de um pacote de cortes de R$ 512 milhões, destinando os recursos a projetos como shopping center e complexo de tratamento de câncer infantil.
Obras que, como tantas outras nessa gestão, existem apenas em vídeos, discursos e artes de assessoria sem projeto aprovado, sem prazo concreto, sem nenhuma realidade fora das redes sociais do prefeito.
O motoboy respondeu sem rodeios: “O PPT ajudou muita gente a fazer obra, comprar equipamento, fazer um investimento. Era a realidade, era o presente diferente do senhor, que só vive na promessa.”*
Enquanto o trabalhador perde, o padrinho gasta.
Maricá lidera o ranking nacional de arrecadação de royalties do petróleo, com R$ 2,40 bilhões arrecadados 13% de tudo distribuído aos municípios brasileiros. Com esse volume extraordinário de dinheiro público, o que a população concretamente recebeu nesse primeiro ano de mandato?
Recebeu R$ 8 milhões de subvenção pública para a escola de samba União de Maricá desfilar no carnaval valor nove vezes maior do que cada escola do Grupo Especial do Rio recebeu da Prefeitura carioca.
O dirigente executivo da escola ocupa cargo de secretário municipal. Quaqua é presidente de honra da agremiação. A escola venceu a Série Ouro e garantiu o acesso ao Grupo Especial mas a vitória chegou marcada por tragédia e caos dentro do próprio desfile.
Um segundo carro alegórico pegou fogo na região da Apoteose, gerando coluna de fumaça visível de diferentes pontos do Sambódromo. A última alegoria saiu do eixo e atropelou três pessoas. Itamar de Oliveira, de 65 anos, teve uma perna amputada, permaneceu internado por dois meses e veio a falecer no dia 17 de abril de 2026 (https://obaraoj.blogspot.com/2026/04/morre-o-integrante-da-uniao-de-marica.html).
A prefeitura emitiu nota de pesar. O prefeito, presidente de honra da escola, já anunciou novo investimento de R$ 30 milhões para o próximo carnaval. Itamar saiu da Sapucaí em maca e não voltou. A população de Maricá aguarda respostas sobre a responsabilidade pela segurança de um evento gerenciado com dinheiro público, onde um cidadão perdeu a vida.
Recebeu também um clube de futebol sustentado com recursos do Banco Mumbuca a mesma instituição criada para gerir políticas sociais cujo presidente acumula cargo de secretário de Governo. Samba e futebol com o cartão do povo, enquanto ruas afundam, hospital superlota e motoboys trabalham na sorte, sob sol e chuva, sem nenhum dos pontos de apoio prometidos.
E recebe, diariamente, a conta da comunicação institucional. Contratos milionários de publicidade firmados pela prefeitura com veículos de comunicação** prática formalmente legal, mas que levanta questões legítimas e inevitáveis sobre independência editorial quando esses mesmos veículos deixam de registrar as irregularidades documentadas pelo próprio Tribunal de Contas do Estado.
A Maricá que aparece nesses espaços comprados é uma cidade de projetos faraônicos, BRICS, bases de lançamento de foguetes e “revolução dentro da revolução.” A Maricá que aparece nas ruas é outra.
Uma licitação de R$ 106 milhões para pavimentação está sob apuração do TCE-RJ e do Ministério Público de Contas após uma empresa com histórico na Operação Lava Jato assumir a liderança do processo, com propostas mais baratas de concorrentes sendo desclassificadas.
Outra licitação, de R$ 86,6 milhões, foi suspensa por violações a princípios constitucionais como eficiência, economicidade e moralidade administrativa. As irregularidades não são rumor de esquina.
Estão documentadas, publicadas e assinadas pelo próprio Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.
A imprensa que não se vende — e as autoridades que não aparecem…
É aqui que reside um dos aspectos mais graves e reveladores desse cenário.
De um lado, uma estrutura de comunicação institucional abastecida com dinheiro público, alcançando veículos que, beneficiários de contratos publicitários com a prefeitura, mantêm uma cobertura que raramente questiona a gestão, raramente ouve o morador comum e raramente publica o que o Tribunal de Contas assina.
Não se trata de acusar ninguém de má-fé trata-se de observar um padrão público, verificável e documentado: onde há contrato, há silêncio; onde não há contrato, há cobertura.
Do outro lado, um punhado de veículos que escolheram o caminho mais difícil e mais honesto. Alguns veículos vem mostrando o abandono da limpeza urbana em diferentes bairros situação registrada em diversas reportagens antes de qualquer reação oficial.
O PlatôBR acompanhou de perto as licitações suspeitas e identificou as empresas envolvidas. O Notícia do Rio e outros portais de fora da cidade têm feito o que a imprensa comprometida com contratos públicos não faz: registrar os fatos, ouvir o cidadão, acompanhar os processos, nomear os números.
A imprensa séria como o Jornal Barão de INohan, a TVC, com audiência crescente a cada semana, são as provas vivas de que quando a imprensa fala a verdade sem medo, o povo reconhece e responde.
É esse conjunto de vozes independentes que amplificou o vídeo do motoboy. Sem eles, a resposta do jovem teria ficado num canto esquecido do Instagram. Com eles, virou o espelho que o prefeito não estava preparado para encarar.
Mas há um silêncio que pesa ainda mais pesado do que o da imprensa comprada: o silêncio das autoridades que deveriam agir.
As denúncias estão publicadas. Os processos no TCE estão abertos e numerados. As irregularidades nas licitações estão documentadas com dados, valores e nomes.
A população denuncia nas redes, os veículos independentes publicam, o Tribunal de Contas suspende processos e os órgãos que deveriam investigar, responsabilizar e proteger o dinheiro público e o cidadão permanecem em silêncio. Um silêncio que, a cada dia que passa, não passa despercebido. E que, a cada dia que passa, alimenta uma revolta que já não cabe mais nos comentários do Instagram.
A pergunta que o gabinete não fez e o motoboy fez…
No vídeo do prefeito, com vereadores enfileirados e representante dos motoboys como adorno de cena, ninguém fez a pergunta óbvia. O motoboy fez todas:
“A autonomia dessas motos é uma “MERDA”.
Quando acabar a bateria lá em Cordeirinho, o senhor vai buscar a gente? Não vai, né? Acha que moto lotada de entrega vai até Ubatiba? Vai pros 'praiadinhos'?”
E completou com a precisão de quem conhece cada metro da cidade que administra: “Maricá nem tem energia direito para os moradores. Quando fica 4, 5 dias sem energia, a gente fica sem trabalhar.”
A promessa das motos, vale registrar, já havia sido feita em janeiro de 2025 e repetida em novembro sem que qualquer projeto fosse apresentado à Câmara de Vereadores. O jovem não sabia disso por pesquisa. Sabia porque simplesmente não viu a moto aparecer.
O vento está mudando.
Quaquá prometeu “fazer dez vezes mais em quatro anos” do que foi feito pelo antecessor, enquanto ataca publicamente Fabiano Horta, que mantém postura discreta desde o início do atual mandato. Quem sente necessidade de gritar o tempo todo costuma ser quem tem mais a justificar. Quem trabalha de verdade, entrega e deixa que os resultados falem.
A audiência que acompanha a TVC e os veículos independentes cresce exatamente porque a população percebe, sem precisar que ninguém explique, o contraste entre as duas Maricás: a do Instagram do prefeito, reluzente e cheia de futuro, e a da rua onde se vive, trabalha e paga conta todo mês.
Quaquá apostou que a juventude seria seu público mais fácil de seduzir com promessas de cooperativas, habilitações gratuitas e um amanhã vencedor. O vídeo do motoboy mostrou, com uma objetividade que nenhuma assessoria consegue rebater, que essa aposta estava errada.
Quando o mais jovem da conversa é também o mais lúcido, quando os poucos veículos que preservaram sua independência fazem o trabalho que o dinheiro público tenta silenciar, e quando a população vai às redes para cobrar o que as autoridades competentes ainda se recusam a apurar é sinal de que Maricá está acordando.
E acordada, ela não esquece.
E não perdoa.
Texto produzido com base em informações e decisões de caráter público, registradas pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, pelo PlatôBR, pelo Notícia do Rio, pela Secretaria Municipal de Saúde de Maricá e em declarações públicas do próprio prefeito Washington Quaquá em suas redes sociais oficiais.