terça-feira, 17 de março de 2026

Saúde "premiada" no exterior, pacientes esquecidos em Maricá

 


A imagem que circula nas redes sociais, celebrando a saúde de Maricá como referência internacional, contrasta de forma brutal com a experiência vivida diariamente por quem depende do sistema público no município. Enquanto a gestão do prefeito Washington Siqueira (o Quaquá) 'comemora premiações e certificados em eventos fora do país', moradores enfrentam uma rede de saúde que, em muitos casos, não consegue responder sequer às demandas mais básicas de atendimento.

Na prática, o que deveria ser um sistema estruturado para garantir respostas rápidas em situações de emergência acaba revelando fragilidades graves. Pacientes que sofrem infarto, por exemplo, continuam sendo direcionados ao setor de trauma do Hospital Conde Modesto Leal, quando o correto seria o encaminhamento imediato para uma unidade preparada para atendimento cardiológico especializado. Em casos como esse, cada minuto conta. A ausência de uma estrutura adequada pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Outro ponto que expõe as limitações do sistema é a incapacidade do município de realizar procedimentos considerados essenciais dentro da medicina cardiovascular moderna. Um exemplo emblemático é o cateterismo cardíaco, exame fundamental para diagnosticar e tratar obstruções nas artérias do coração. Hoje, quando esse procedimento se torna necessário, pacientes de Maricá precisam ser transferidos para hospitais em cidades vizinhas, como Niterói ou São Gonçalo. A logística dessas transferências, muitas vezes demorada, aumenta os riscos em situações clínicas graves.

A realidade se torna ainda mais angustiante para familiares que aguardam notícias sobre seus parentes internados. Há relatos recorrentes de pessoas que permanecem por mais de doze horas sem qualquer atualização sobre o estado de saúde de pacientes internados em unidades municipais. A ausência de comunicação mínima entre hospital e familiares transforma momentos já delicados em situações de profunda angústia e insegurança.

Outro elemento que tem gerado forte debate entre moradores é o Hospital Municipal Dr. Ernesto Che Guevara. A unidade, inaugurada com grande aparato político e carregando o nome de uma figura histórica associada à revolução cubana, foi apresentada como um símbolo de modernidade na saúde pública da cidade. No entanto, para parte da população, a realidade vivida no acesso ao atendimento não corresponde à narrativa institucional. Há relatos persistentes de que o atendimento pleno não ocorre de forma universal e que, em determinadas situações, o acesso a serviços e encaminhamentos depende de influência política ou de indicações internas.

Esse tipo de percepção cria um ambiente de descrédito no sistema público. Quando o cidadão começa a acreditar que direitos básicos passam a depender de relações políticas ou de proximidade com estruturas de poder, o princípio de universalidade do Sistema Único de Saúde, previsto na Constituição Federal, perde sentido na prática.

A contradição entre propaganda e realidade também se reflete em outras áreas sensíveis do município. Em uma cidade que recebe bilhões de reais em royalties do petróleo, moradores frequentemente relatam dificuldades no acesso a vagas em creches, oportunidades de emprego e serviços públicos essenciais. A sensação que se consolida em parte da população é a de que o discurso institucional apresenta uma cidade que não corresponde ao cotidiano vivido nos bairros.

Premiações internacionais, por si só, não são necessariamente sinônimo de qualidade concreta no atendimento à população. Muitas dessas certificações avaliam programas, iniciativas específicas ou projetos administrativos, mas não conseguem captar a experiência real do usuário do sistema de saúde. O reconhecimento institucional pode até existir no papel, em relatórios e cerimônias oficiais. Porém, quando confrontado com a vivência de quem aguarda horas por atendimento, de quem precisa ser transferido para outro município para realizar um procedimento básico ou de quem permanece sem informações sobre um familiar internado, o discurso de excelência se fragiliza.

A população de Maricá não precisa apenas de troféus institucionais ou fotografias em eventos internacionais. Precisa, antes de tudo, de um sistema de saúde capaz de oferecer atendimento rápido, estrutura adequada, transparência nas informações e igualdade no acesso aos serviços. Sem isso, qualquer premiação corre o risco de se tornar apenas uma peça de propaganda, distante da realidade enfrentada por quem depende da rede pública todos os dias.

Texto: Luana Gouvêa, mãe atípica, fundadora do 'Simplifica Down', presidente do partido Novo em Maricá (RJ), analista política e colunista do portal Circuito Aberto News. Integra a coluna 'Verdade em Movimento', espaço dedicado à reflexão crítica sobre política, democracia e sociedade.