Quando tentar calar uma mulher vira estratégia eleitoral
A política brasileira ainda enfrenta desafios importantes quando o assunto é a participação feminina nos espaços de decisão. Apesar dos avanços na legislação e do discurso cada vez mais presente sobre igualdade de oportunidades, a realidade de muitas campanhas eleitorais revela que, para diversas candidatas, a disputa política não ocorre apenas no campo das ideias. Em muitos casos, ela se transforma também em um ambiente de ataques pessoais, tentativas de desqualificação e episódios claros de violência política de gênero.
Foi nesse contexto que vivi, de forma direta, a experiência de disputar as eleições municipais de 2024 como candidata à vice-prefeita. Participar de uma campanha eleitoral exige coragem, preparo e disposição para o debate público. A política, em sua essência, deveria ser o espaço do confronto de ideias, da construção de propostas e da busca por soluções para a sociedade. No entanto, muitas mulheres acabam enfrentando obstáculos que vão muito além da disputa política legítima, revelando que ainda existe uma cultura resistente à presença feminina em posições de liderança.
A violência política de gênero nem sempre se manifesta de maneira explícita. Frequentemente ela aparece de forma velada: nas tentativas de desmoralização, na disseminação de boatos, no questionamento constante da capacidade da mulher ou na insistente tentativa de reduzir sua atuação a estereótipos. Em vez de um debate saudável sobre propostas e projetos para a cidade ou para o país, o foco passa a ser o desgaste da imagem de quem decidiu ocupar um espaço público.
Quando isso acontece, o problema deixa de ser apenas individual. Trata-se de uma questão que impacta diretamente a qualidade da democracia. Uma sociedade democrática depende da pluralidade de vozes e da participação ativa de diferentes segmentos sociais. Quando mulheres são intimidadas ou desestimuladas a participar da política, o próprio sistema democrático perde em diversidade de perspectivas e em representatividade.
O Brasil avançou ao criar uma legislação específica para combater a violência política contra mulheres, reconhecendo que impedir ou dificultar a participação feminina na política é uma prática que precisa ser enfrentada. Ainda assim, na prática, muitas candidatas continuam lidando com situações que ultrapassam o campo do debate político legítimo e entram no terreno da tentativa de silenciamento.
Minha experiência nas eleições de 2024 reforçou algo que muitas mulheres já perceberam ao longo dos anos: a política brasileira ainda precisa amadurecer para garantir um ambiente verdadeiramente respeitoso e equilibrado para todos que desejam participar da vida pública.
Talvez uma das partes mais difíceis dessa realidade seja perceber que, em determinadas situações, episódios graves acabam sendo tratados como algo menor ou até desconsiderados como exagero. Em alguns casos, até mesmo outras mulheres acabam minimizando esse problema, muitas vezes em troca de alinhamentos políticos, cargos ou promessas de espaço no futuro. Essa postura fragiliza um debate que deveria ser conduzido com responsabilidade e seriedade.
Mulheres não entram na política para serem silenciadas. Entram para contribuir com ideias, representar parcelas da sociedade e participar da construção de soluções para os desafios coletivos.
Quando uma mulher é atacada ou intimidada no ambiente político, muitas vezes o objetivo é exatamente desestimular sua permanência naquele espaço. A resposta, no entanto, precisa seguir no caminho oposto: o fortalecimento da presença feminina nos espaços de decisão.
A democracia se torna mais sólida quando diferentes vozes podem participar do debate público com liberdade, respeito e segurança. Garantir que mulheres possam exercer plenamente seus direitos políticos, sem ataques ou intimidação, não é apenas uma pauta feminina. É, acima de tudo, um compromisso com uma democracia mais justa, madura e verdadeiramente representativa.
Luana Gouvêa é analista política e colunista do portal Circuito Aberto News. Integra a coluna Verdade em Movimento, espaço dedicado à reflexão crítica sobre política, democracia e sociedade.






