Acidente grave, nota máxima contestável e contexto político inevitável: o que os fatos dizem sobre o título da União de Maricá.
baseado em matéria da TVC (TV Copacabana web, com inserções e correções do jornal Barão de Inohan)
A União de Maricá é, nos registros oficiais, a campeã da Série Ouro 2026, com 269,4 pontos, e estará no Grupo Especial do Carnaval carioca em 2027. O título existe. Parabéns para os componentes, diretoria, todos os envolvidos que derma seu suor, deram o 'couro', se esforçaram e se empenharam na conquista deste sonho, sonho que começou em 26 de maio de 2015, quando a escola foi 'fundada' pelo então prefeito Washington Siqueira (o Quaquá - em seu segundo governo) e por Mauro Alemão, com Matheus Gaúcho cantando as primeiras notas da agremiação na sessão solene da Câmara Municipal de Maricá, no então colégio Cenecista Maricá.
FATOS, FOTOS E VÍDEOS
O que também existe documentado, filmado e noticiado por veículos de alcance nacional (transmitido ao vivo pela Band TV - canal 7 em tv aberta no Rio de Janeiro), é um conjunto de fatos que transforma essa conquista numa das apurações mais questionadas da história recente do samba carioca.
Este texto não imputa crime a ninguém. Descreve o que aconteceu, cita as fontes que investigaram o tema e faz as perguntas que o interesse público exige.
UM HOMEM SAIU DO CARNAVAL COM AS PERNAS FRATURADAS E AINDA ESTÁ HOSPITALIZADO EM ESTADO GRAVE
Antes de qualquer debate sobre pontuação, há um fato humano que não pode ser tratado como nota de rodapé.
Durante o desfile da União de Maricá, o último carro alegórico da escola prensou QUATRO pessoas na Avenida. Um funcionário da agremiação sofreu DUAS fraturas graves nas pernas, uma delas exposta. Recebeu os primeiros atendimentos ainda no posto de saúde localizado na praça da Apoteose, e posteriormente foi conduzido ao hospital Souza Aguiar, onde passou por cirurgias, colocando pinos, continuando internado em estado que ainda inspira muitos cuidados.
A escola só emitiu nota de 'solidariedade' à família do integrante (só isso???).
Outros dois foram atendidos e liberados e um terceiro foi levado ao Miguel Couto e pouco se sabe do seu estado (???).
O episódio ocorreu após a escola acelerar a evolução e o mesmo carro alegórico que causou o acidente, já entrou na Sapucaí com problemas no gerador. A correria para resolver o problema era geral mas o carro cruzou os 700 metros da Avenida totalmente apagado. J. P. Vergueiro que transmitia o desfile pela Band, falou várias vezes sobre o problema e tanto ele como os demais que estavam na transmissão, assim como o time da rádio Band News FM e todas as demais mídias que transmitiram o desfile lamentavam o fato e deixavam claro que a escola perderia pontos preciosos no julgamento, fato posteriormente NÃO CONFIRMADO, pois a escola só perdeu 0,2 décimos em ALEGORIAS E ADEREÇOS, perdeu apenas 0,1 décimo em EVOLUÇÃO mesmo com toda a confusão do final do desfile e os problemas no terceiro carro alegórico desde a sua entrada e recebeu nota máxima em HARMONIA. Tudo isso foi filmado, confirmado e reportado por todas as mídias presentes e pelo portal Metrópoles que se aprofundou na questão.
Uma pessoa entrou no Carnaval trabalhando e saiu com duas pernas fraturadas. Esse fato, isoladamente, já exigiria resposta formal e pública da LigaRJ e da escola. Até o fechamento desta matéria e da matéria original feita pela TVC, nenhuma das duas se pronunciou sobre o episódio.
A NOTA QUE O REGULAMENTO NÃO EXPLICA
A escola estourou o tempo regulamentar em dois minutos. A punição automática de 0,2 pontos foi aplicada até aqui, e o sistema funcionou. Mas o estouro de tempo no Carnaval não é infração isolada: ele compromete diretamente o andamento da escola, a sincronia da bateria e a harmonia dos componentes nos minutos finais. Isso não é opinião é consequência técnica conhecida por qualquer profissional com experiência no julgamento do samba. Carlos Andreazza na rádio Band News Fm durante a apuração, se mostrou incomodado e contrariado com as notas absurdas atribuídas a várias escola, tanto contra como a favor das escolas: "Não houve critério no julgamento", disse o jornalista e comentarista que tem grande conhecimento de carnaval.
Todos os seis jurados responsáveis pelo quesito Harmonia, os também os jurados de Alegorias e Adereços viram desde o início do desfile o terceiro carro passar totalmente apagado. O leitor pode questionar: 6 jurados? Sim, foram 6 jurados para cada quesito. Segundo a Riotur, das 6 notas, apenas 4 seriam lidas (não ficou claro o critério para a exclusão destas duas notas e das 4 notas lidas, a menor sempre é descartada, valendo as três maiores.
Durante a transmissão ao vivo da apuração, comentaristas da Rádio Band News FM — emissora com décadas de cobertura técnica do Carnaval, sem interesse na desqualificação do espetáculo avaliaram que, diante das falhas registradas, a escola deveria terminar entre o 4º e o 6º lugar. A Unidos de Padre Miguel e a Império Serrano passaram a ser as favoritas ao título. A Padre Miguel, apontada pela imprensa especializada como a melhor escola da Série Ouro e premiada com o Estandarte de Ouro e com o troféu Band Folia (ou seja, unanimidade dentre os mais importantes troféus fora título da série ouro), terminou em 3º lugar a 0,4 pontos da campeã. A Império Serrano terminou a 0,3 décimos. Se levarmos em conta os 0,2 décimos que a União de Maricá perdeu pela punição do 'estouro do tempo', a diferença subiria para 0,5 décimos para a Império e 0,6 para a Padre Miguel, o que em julgamentos de desfiles de escolas de samba, é uma distância 'astronômica'.
A pergunta é legítima e simples: com base em quais critérios técnicos um desfile com carro apagado e estouro de tempo registrado recebe nota máxima no quesito diretamente afetado por essas ocorrências? A LigaRJ tem essa resposta, mas não a ofereceu.
O QUE O METRÓPOLES APUROU — E QUE NÃO PODE SER IGNORADO
O portal Metrópoles, em reportagem publicada após a apuração, trouxe um dado de peso que antecede o próprio Carnaval de 2026: ainda em 2025, o Portal Léo Dias havia publicado a existência de um suposto esquema para beneficiar a União de Maricá na disputa do ano seguinte.
Segundo o veículo, haveria um acordo entre a Liesa responsável pelo Grupo Especial e a LigaRJ, organizadora da Série Ouro, com os nomes de Sandro Avelar e Ailton Guimarães Jorge apontados como articuladores da suposta operação.
A Liesa, consultada pelo Metrópoles, afirmou que “não possui nenhuma ingerência no Grupo de Acesso” e que sua responsabilidade se limita à organização do Grupo Especial. A LigaRJ e a União de Maricá foram procuradas e não responderam até o fechamento da reportagem original.
A denúncia foi publicada um ano antes. O resultado veio. As respostas, não.
O CONTEXTO POLÍTICO QUE EXISTE E NÃO PODE SER OMITIDO
Washington Siqueira (o Quaquá), prefeito de Maricá, é o criador da União de Maricá e presidente de honra da agremiação. Não é informação de bastidor é cargo público e assumido. Segundo reportagem da revista Veja, citada pelo Metrópoles, o prefeito destinou mais de R$ 8 milhões de recursos municipais à agremiação em junho de 2025. O prefeito comemorou antecipadamente a vitória nas redes sociais.
O prefeito de Maricá mantém aliança política pública e declarada com o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. A Prefeitura do Rio co-organiza o Carnaval por meio da Riotur e é gestora do Sambódromo da Marquês de Sapucaí.
Nenhum desses fatos, registrado isoladamente, configura irregularidade. O jornalismo, no entanto, não analisa fatos de forma isolada e sim, Analisa cenários.
E o cenário aqui é formado por: denúncia prévia publicada por veículo nacional, financiamento milionário municipal à escola campeã (com empenho posterior de R$ 17 milhões confirmado e sem aprovação da Câmara dos Vereadores), vínculo formal do prefeito com a agremiação, nota máxima em quesito afetado por falhas documentadas, e silêncio institucional de todos os envolvidos.
O QUE O PÚBLICO JÁ DIZ
No perfil oficial da União de Maricá no Instagram, conforme reportado pelo Metrópoles, internautas foram diretos: “A Liga RJ fazendo seu trabalho. Chocando zero pessoas”, escreveu um usuário. “Parabéns, escola do prefeito”, comentou outro. “Ela quase mata gente, estoura tempo, passa com carro apagado… mas está aí a campeã de vocês”, afirmou uma internauta. “Não mereceu! O homem que teve a perna cortada? Ninguém viu? A União de Padre Miguel que é dona desse título”, publicou outra.
A presidente da Unidos de Padre Miguel, a jovem Lara Mara, recebeu o troféu e não ficou para a foto oficial, deixando os demais no 'vácuo' (foto acima) e já na quadra da agremiação muito chateada com o resultado, parabenizou os integrantes, afirmando que eles eram 40 e falou: "Enfia o 9.9 no cu", desabafando à sua comunidade após a apuração da Série Ouro. Uma das favoritas para subir ao Especial, escola ficou com o 3º lugar:
Não são vozes organizadas de torcida rival. São leituras espontâneas de quem assistiu ao mesmo desfile e à mesma apuração.
CONCLUSÃO
A União de Maricá tem seu título (como dissemos no início da nossa matéria - Barão de Inohan - parabéns aos sambistas, fizeram a sua parte. Este texto (tanto o original da TVC quanto e reproduzido com inserções e correções pelo Barão de Inohan) não o apaga e não acusa ninguém de crime. O que este texto faz e o que o jornalismo tem obrigação de fazer é registrar que uma apuração pública, com impacto cultural e financeiro direto sobre instituições e pessoas, deixou perguntas sem resposta.
Por que quatro jurados atribuíram nota máxima em Harmonia a uma escola que estourou o tempo e teve carro apagado durante todo o desfile? Por que a LigaRJ não se pronunciou sobre o acidente que fraturou a perna de um trabalhador?
Por que uma denúncia de favorecimento publicada um ano antes não gerou qualquer investigação formal?
Quando as instituições não respondem, a imprensa pergunta. Quando a imprensa pergunta, o público avalia.
O restante é história e essa ainda está sendo escrita e a imprensa séria, continuará contando.
baseado em matéria da TVC (TV Copacabana web, com inserções e correções do jornal Barão de Inohan)













