Enquanto a Polícia Federal e a CGU desmantelam esquemas de R$ 29 milhões no Ceará, o TCE-RJ acumula suspensões de licitações bilionárias em Maricá sem que nenhuma operação federal bata à porta
Há uma pergunta que a população de Maricá tem o direito de fazer nesta terça-feira, 9 de junho de 2026: por que o mesmo Estado que age no Ceará ainda não agiu aqui?
Nesta manhã, a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União deflagraram a Operação Rota Fantasma, com o objetivo de aprofundar investigações sobre supostos esquemas de fraude em licitações e desvios de recursos públicos federais em municípios do interior cearense.
O caso é tecnicamente preciso, institucionalmente coordenado e, para qualquer jornalista que cobre gestão pública municipal no Rio de Janeiro, perturbadoramente familiar.
O modus operandi cearense: empresas fantasmas, dinheiro real…
Segundo a PF, as investigações tiveram início após comunicação do COAF, que identificou que, entre 2017 e 2023, empresas sem estrutura logística e operacional apresentaram movimentação de valores acima de suas capacidades financeiras participando de processos licitatórios, recebendo recursos de entes públicos na ordem de R$ 29 milhões e repassando parte dos valores para possíveis servidores públicos.
A operação cumpriu 11 mandados de busca e apreensão nos municípios cearenses de Abaiara, Acopiara, Brejo Santo, Jaguaretama, Jaguaribe e Iracema, autorizados pela Justiça Federal.
O nome da ação é revelador: “Rota Fantasma” faz alusão aos contratos de transporte escolar celebrados entre os municípios e as empresas investigadas, por meio dos quais estariam ocorrendo os crimes apurados.
Os investigados poderão responder pelos crimes de corrupção ativa e passiva, fraude em licitações e lavagem de capitais.
O paralelo que Maricá não pode ignorar
A TV Copacabana.com não afirma que Maricá é o Ceará. O que os documentos públicos permitem afirmar e o que nenhum assessor de imprensa pode desmentir, porque estão nos processos do próprio Tribunal de Contas é que o padrão de irregularidades identificado nos editais maricaenses guarda uma semelhança estrutural alarmante com o DNA administrativo que a PF encontrou no interior cearense: editais tecnicamente deficientes, quantitativos equivocados, exigências que restringem a concorrência e contratos que não passam pelo crivo dos órgãos de controle sem acionar alertas.
A diferença está na escala e na resposta institucional.
Enquanto no Ceará o gatilho foi uma movimentação atípica de R$ 29 milhões identificada pelo COAF, em Maricá o TCE-RJ acumula um histórico de intervenções que, somadas, superam o equivalente a um orçamento municipal inteiro de muitos municípios brasileiros:
Em outubro de 2025, o TCE-RJ suspendeu a Concorrência Eletrônica nº 90007/2025, da SOMAR, que previa a contratação semi-integrada de empresa para elaboração do projeto executivo e execução das obras do mergulhão e do parque linear na RJ-106, em Inoã contrato estimado em R$ 737.885.005,67. A decisão apontou diversas irregularidades no edital.
Em junho de 2025, o mesmo tribunal suspendeu a Concorrência Eletrônica SRP nº 90005/2025, da SOMAR, para execução de serviços de regularização de subleito, construção de base, sub-base, meio-fio e calçada, com valor estimado de R$ 166.240.403,22, após a Secretaria-Geral de Controle Externo apontar possíveis irregularidades no edital.
Em julho de 2025, o TCE-RJ determinou a suspensão imediata da Concorrência Eletrônica SRP nº 90004/2025, da SOMAR, estimada em mais de R$ 86,6 milhões, por indícios de irregularidades apontadas pela Associação das Empresas de Engenharia do Rio de Janeiro.
Em 2025, o TCE também determinou a suspensão de pregão eletrônico da Prefeitura de Maricá para remoção de plantas aquáticas e resíduos dos rios, canais e lagunas do município, no valor de R$ 57,1 milhões, apontando irregularidades graves no edital, desde a falta de transparência nos preços até exigências técnicas consideradas desproporcionais.
Detalhe: o certame havia sido marcado para o último dia de 2025, 31 de dezembro, às 8h da manhã.
Em junho de 2025, o TCE-RJ suspendeu também o Pregão Eletrônico para compra de pedras de enrocamento, de R$ 94,8 milhões, reconhecendo a presença de irregularidades graves no edital que conferiam “potencial restritivo” à concorrência.
A questão que fica no ar
No Ceará, o COAF detectou R$ 29 milhões em movimentações atípicas e a Polícia Federal entrou pela porta. Em Maricá, o próprio Tribunal de Contas do Estado suspendeu, em série, licitações que somam mais de R$ 1 bilhão em contratos com irregularidades documentadas e nenhuma força federal bateu à porta.
Em apenas uma das suspensões, a do mergulhão de Inoã, o TCE identificou sete graves irregularidades no edital, incluindo memória de cálculo deficiente, divergências entre orçamento e projeto, duplicidade de serviços e ausência de projetos de remanejamento e desapropriação. Não são falhas de digitação. São, na linguagem técnica dos auditores, indícios de que algo no processo foi construído de forma a dificultar a fiscalização.
O modus operandi cearense desvendado pela Operação Rota Fantasma tem um nome: empresas sem estrutura real participando de licitações, recursos federais fluindo para dentro e parte desse dinheiro escorrendo para fora, em direção a agentes públicos.
matéria de Ricardo Cantarelle - TVC - Tv Copacabana Web




