Ele chegou em Maricá no início da década de 90 e se instalou no Parque Nanci (na época, um local ainda rural, a beira da RJ 106 na altura do quilômetro 25), onde construiu sua vida e seu atelier.
Um dos maiores nomes das artes plásticas (ou visuais como alguns gostam de chamar), o também (e muito) artesão OSIAS SILVEIRA chegou por aqui com uma história e uma bagagem de fazer inveja.
Foi amigo pessoal de Raul Seixas (muito mais do que Paulo Coelho que acabou levando a fama de 'grande amigo do Malucos Beleza') como disse em várias entrevistas e ocasiões Kika Seixas, viúva de Raul. A filha do casal Seixas - Vivi - tinha por Osias um padrinho 'postiço'.
Foi Osias e sua mãe que abrigaram por algumas vezes o 'falido' Raul em sua residência do Jardim Botânico no Rio de Janeiro.
Mas Osias não era só o amigo do Maluco Beleza. Ele era modelo (desfilou em muitas passarelas da moda nas décadas de 70, 80 e até 90). Foi um grande vitrinista (quando essa profissão era valorizada) e criou peças famosas para lojas tradicionais como a LA MOANA e a Kahlil M. Gebara, maior reduto dos 'surfistas e bichos grilo do Rio de Janeiro, com diversas filiais pela zona sul carioca.
Osias Silveira é um artista plástico nato e grande vitrinista
Afro-descendente, nascido em 1946, cresceu no complexo comunitário no Horto - Jardim Botânico (RJ).
De origem simples, ajudava a família desde a pré adolescência; aos doze anos ele vendia laranjas na feira e levava o dinheiro para a sua mãe.
Aos dezessete anos, trabalhava como office boy numa Loja de Roupas de Moda em Ipanema. Nos intervalos, ele oferecia assistência e observava o trabalho do vitrinista conceituado no mercado da moda carioca dos anos sessenta, Jorge Moase, que viajou para a Europa. Surgiu a demanda para desmontar e remontar a vitrine, e Osias convence o chefe Kahlil que ele sabia fazer.
A vitrine ficou tão bem montada, que Kahlil convida Osias a montar outras vitrines, e logo, recomenda seu trabalho a outros amigos, incluindo um fornecedor, que contrata Osias com ganhos extremamente polpudos para a época e sua fama cresce no mercado da moda.
Nas décadas de 70 e 80, Osias se torna responsável pela criação e montagem das vitrines mais expressivas da Zona Sul Carioca. Com os lucros, ele compra um apartamento na rua Assis Brasil em Copacabana e esbarra com o novo morador do prédio, Raul Seixas e se tornam amigos, e Raul passa a frequentar o apartamento de Osias.
Nos anos 80, Raul conhece um momento difícil da vida de Osias, que após uma briga séria com sua esposa, levanta a moral do amigo, e saem juntos para a noite de Copacabana para se distrair.
No inicio dos anos noventa, Osias conhece Maricá e se apaixona pela vista dos lagos e da cidade. Desde a sua chegada, o artista se transformou numa referência cultural, montou uma casa no interior do Parque Nanci onde morou com sua segunda família, e teve mais dois filhos, ganhou de presente um ateliê na beira da estrada, onde vivia até o seu desencarne, e consolidou sua arte ecológica, aproveitando materiais inservíveis da natureza com folhas de palmeiras, coqueiros, cocos, madeiras, galhos, materiais naturais e reciclados.
Fez inúmeras exposições em Maricá (onde junto com o então amigo Sérgio da Porto das Tintas e do também amigo, produtor e jornalista Pery Salgado, criaram o projeto ARTE IN NATURA que posteriormente viraria ARTE NA ESTRADA (com teve dez edições), em galerias, no GAM (Grupo de Artistas de Maricá) e em outros locais, sempre pelas mãos do então seu maior divulgador, o jornalista Pery Salgado.
Fez também diversas exposições no Rio de Janeiro e em outras cidades (inclusive fora do Brasil), atendeu várias pessoas famosas, como Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho (de quem era também amigo intimo) e Beth Carvalho, e acabou desenvolvendo ao máximo sua verve sambista, mas era no rock (inspirado por Raulzito) que seguia em frente, criando suas peças, fazendo seus eventos musicais, criando o 'Boteco do Raul' e criando no Parque Nanci às margens da RJ 106, a praça Raul Seixas (não reconhecida ainda oficialmente pela prefeitura de Maricá, mas um marco na cultura maricaense).
Querido por todos, sempre cercado de amigos e admiradores, nunca foi devidamente reconhecido em Maricá pelo poder público.
Em 2004, entregou nas mãos do produtor e jornalista Pery Salgado, um peça dizendo que gostaria que fosse um dos troféus do V FESTIVAL NACIONAL DE VOZ E VIOLÃO e a partir dai, suas produções ficaram conhecidas dos músicos e do mundo festivaleiro, sendo destaque em todas as edições do festival, com o TROFÉU RAULZITO!
Sofreu o 'pão que o diabo amassou' no período pandêmico e foi novamente o jornalista Pery Salgado (com apoio inicial do também artista plástico Valdo Lima) quem abraçaram Osias no momento de sufoco.
Foi finalmente aparecendo, passou (mesmo que por questões políticas nas eleições de 2024) a ser mais reconhecido e reverenciado e em 26 de maio, pelas mãos da vereador Andrea Cunha, FINALMENTE depois de décadas, recebeu o título de Cidadão Maricaense, na festa dos 212 anos da cidade, pouco menos de um mês da sua passagem para um outro plano, mas... foi (finalmente) reconhecido!
ÚLTIMA GRANDE EXPOSIÇÃO
Quando completou 80 anos, o Museu Casa Darcy Ribeiro em Corderinho abriu a exposição "Osias 80", uma homenagem ao artista.
A mostra ficou em cartaz por apenas um mês (deveria ter um espaço eterno na Casa de Cultura de Maricá ou mesmo na Casa Darcy Ribeiro, assim como no GAM e em outros espaços.
A exposição dos 80 anos de OSIOSVISKI como os amigos o chamavam apresentou três núcleos principais:
"Guerreiros, Santos, Loucos e Amigos” – Uma série de esculturas que celebraram figuras icônicas e personagens do imaginário popular, refletindo a forma como Osias enxerga o mundo.
“Contrariando o fim, o infinito potencial” – Obras que exploraram o reaproveitamento de materiais, desafiando a lógica do descarte e transformando resíduos em arte.
“A vitrine é uma cena, a oficina é um ensaio” – Um olhar sobre sua trajetória como vitrinista e cenógrafo, onde a estética e a narrativa caminham juntas.
Um pouco mais de Osias Silveira
Reconhecido por sua trajetória singular, Osias Silveira nunca se prendeu a rótulos. Sua relação com a arte começou quando era vitrinista no Rio de Janeiro, criando cenários inovadores que despertavam o interesse dos passantes. Ao longo da vida, transitou por diferentes áreas, passando pela moda e pelo carnaval, até encontrar sua verdadeira expressão na 'Arte in Natura', onde transformava folhas de Palmeira Imperial e outros elementos naturais em esculturas detalhadas, muitas em tamanho natural.
Amante de rock e amigo de inúmeros grupos de motociclistas, criou motos em tamanho natural com sua arte, que recebiam duas pessoas tranquilamente na sua carenagem de produtos inservíveis da natureza.
Para além da arte, Osias Silveira também tem uma forte ligação com a cultura popular. Criador do lendário bar Candongueiro, referência do samba de raiz em Niterói, já reuniu em suas rodas de música nomes como Nelson Sargento, Beth Carvalho e Zeca Pagodinho. No Carnaval, colaborou com a Escola de Samba Porto da Pedra, ajudando a desenvolver o enredo de 1997.
Sua oficina, localizada às margens da RJ 106, sempre foi um reflexo de sua visão de mundo. Em meio ao concreto da estrada, um pequeno portal de verde e criatividade se abre: pneus viram bancos, cipós formam balcões, garrafas de vidro decoram móveis e adesivos de motoclubes cobrem as paredes, formando um mosaico de experiências vividas. Ali, entre esculturas e lembranças, Osias recebia visitantes, amigos e curiosos, sempre disposto a contar histórias e compartilhar um copo de cerveja ou de vinho nestes últimos anos de existência.
Que Maricá (como sempre acontece na cultura brasileira) reverencie Osias em seu desencarne, que perpetue suas obras e que seu espaço vire um MUSEU DEDICADO AO NOSSO MALUCO BELEZA, AMIGO DE OUTRO MALUCO BELEZA!
O velório de Osias começará às 14 horas da quarta feira 24/6 (capela 3) e o sepultamento acontecerá às 15 horas no Campo Santo Cônego Batalha.

















