domingo, 21 de agosto de 2022

"Maricá, o paraíso desmascarado pelo medo" (A Tribuna)

 Maricá, o paraíso desmascarado pelo medo


Por causa da maciça propaganda oficial que promete um verdadeiro paraíso, a cidade de Maricá se tornou atrativa para quem busca melhores condições de vida. O progresso, fomentado pelos polpudos royalties do petróleo, fez com que empresas se instalassem lá, o que ampliou a oferta por emprego. Por falta de planejamento e/ou desleixo, a outrora bucólica Maricá inchou e o sonho do paraíso prometido se transformou num perverso pesadelo, resort de traficantes de todo o país que provocam o aumento da criminalidade e favelização, como revelam especialistas em segurança pública.

Recentemente, as aulas presenciais foram suspensas em oito escolas nos distritos de Inoã e Itaipuaçu, após ação policial que resultou na morte de um suspeito de tráfico de drogas no condomínio Minha Casa Minha Vida de Inoã. Além disso, o município convive com disputas entre facções criminosas pelo controle do tráfico na comunidade Saco da Lama, no Bairro da Amizade.

Especialistas em segurança apontam que a falta de uma infraestrutura de segurança para absorver o crescimento populacional contribui para o aumento da violência, conforme pôde ser observado nas últimas semanas.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2010 e 2021 a população aumentou em cerca de 40 mil habitantes. O Censo Demográfico de 2010 apontou que havia 127.461 habitantes, enquanto a projeção do ano passado estava em 167.668.

Para Erivelton Lopes, especialista em Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense (UFF), Maricá sofre o crescimento desordenado.

“Percebe-se que o crescimento da cidade vem de forma desordenada beneficiando o aumento da criminalidade. De dois anos para cá, é nítido que a violência vem aumentando nessa região, traficantes de todo o país vem ocupando aos poucos a cidade. Uma vez ocupado pelo poder paralelo, o poder público perde o espaço. É como diz o ditado popular: ‘É melhor prevenir do que remediar’”, analisou.

Erivelton elogiou as políticas públicas do Município voltadas ao social, como os ônibus sem tarifa e a criação de uma moeda social. No entanto, ele apontou que faltaram políticas de segurança pública. Além disso, o especialista demonstrou preocupação com um eventual fim dos recursos dos royalties, o que poderia levar Maricá ao colapso.

“A gestão política atual trabalha forte na política social. Os cidadãos têm como complemento renda pública para a melhor qualidade de vida possível. Esse momento de economia saudável que a cidade de Maricá passa é para se comemorar, mas nem tudo é o paraíso. Lembramos que o petróleo que existe em Maricá um dia vai acabar. A administração maricaense não se preocupa tanto com políticas de segurança pública como a política social”, avaliou.

Reforço no policiamento de rotina

Maricá é uma das cidades contempladas com policiamento suplementar, por meio do Programa Estadual de Integração na Segurança (Proeis) e da operação Segurança Presente. De acordo com Giuliano Mattos, também especialista em segurança pública. O problema da violência deve ser combatido com reforço no patrulhamento de rotina, feito pelo batalhão que atende a duas cidades. O 12º BPM cuida de Niterói e Maricá.

“O ideal é que se tenha o reforço no policiamento. Embora Maricá já conte com os projetos Segurança Presente e Proeis, a cidade poderia ter um aumento no efetivo das vagas para esses monitoramentos de rotina, especialmente nas áreas onde foi apontada essa mancha criminal. O aumento do efetivo iria ajudar ainda no monitoramento de câmeras de vigilância num trabalho de comunicação permanente com as equipes de rua, a fim de atender de forma imediata à população e diminuir a criminalidade”, explicou.

Escola de Inoã foi uma das que fecharam as portas

Dias de terror

Uma das escolas a terem as aulas suspensas foi a Municipalizada de Inoã. A reportagem conversou com uma funcionária do local, que preferiu não se identificar. Ela contou que, antes do crescimento populacional, Maricá era uma cidade “pacata”, com raros casos de crimes. Ela elogia o trabalho realizado pela polícia, mas acredita que o combate ao crime deve ser feito de maneira mais profunda.

“Minha filha às vezes né pergunta: ‘o que aconteceu com Maricá?’. Era uma cidade tranquila, até pacata. O crescimento é bem vindo. Está gerando empregos, as praças são lindas, mas qual o preço disso? Falta uma estrutura para evitar que esses bandidos se instalem. Isso nunca aconteceu aqui antes, quando vim para cá não tinha nada aqui. A polícia tem feito o trabalho dela, mas é preciso cortar o mal pela raiz”, disse.

Ela lembrou de outra cidade que viveu situação parecida. Em Macaé, no Norte do Estado, houve intenso crescimento populacional entre as décadas de 1990 e 2000. Contudo, o município convive, hoje, com a pior consequência disso: a alta da criminalidade. A funcionária disse temer que Maricá se torne uma “nova Macaé”.

“Macaé virou um negócio lamentável. É uma cidade triste, dominada pelos bandidos. O que a gente mais teme é Maricá se tornar uma nova Macaé. Uma cidade cheia de potencial, mas que se perdeu para o crime”, completou.

Na comunidade do Saco da Lama, a última semana foi de mais tranquilidade após dias de tensão. No dia 5 de agosto, iniciaram confrontos entre criminosos de facções rivais, pelo controle do tráfico de drogas. Imediatamente, o 12º BPM reforçou o policiamento na região. De acordo com uma moradora, que mantém um comércio na localidade, a situação foi atípica.

“A tensão mesmo foi na sexta-feira retrasada. Nunca aconteceu isso antes aqui, Maricá sempre foi uma cidade tranquila. Eles não mexeram com os moradores, a briga foi entre eles. Não sabemos nem mesmo quem são eles. O comércio funcionou normalmente, não deram toque de recolher”, relatou.

Enquanto no Saco da Lama não houve toque de recolher, estabelecimentos nos arredores do condomínio Minha Casa Minha Vida de Itaipuaçu (uma das áreas mais violentas da região Leste Fluminense) tiveram que fechar as postas na última quarta-feira (17). É o que afirma um morador que, amedrontado, conversou brevemente com a reportagem. Ele preferiu não dar maiores detalhes sobre a escalada da violência por medo de sofrer represálias.

“Isso é uma situação deles aí, mas que está em sigilo. Tá brabo. Não tem como nem falar muito. Ontem [quarta-feira] fecharam tudo, de luto por alguém que morreu aí”, declarou.

Em nota, a Polícia Militar afirmou que a situação no município voltou à normalidade, estando com patrulhamento reforçado a fim de manter o atual status.

Prefeitura se manifesta

A Prefeitura de Maricá informou que recebeu todo o apoio da Polícia Militar durante os dias em que ocorreram episódios de violência, incomum na cidade, com a situação devidamente controlada nas comunidades afetadas. A Prefeitura de Maricá esclareceu que, mesmo sendo de competência estadual, a segurança pública é uma das prioridades da gestão municipal, que vem investindo em inteligência e tecnologia, com a instalação de câmeras de monitoramento e outros serviços que contribuem diretamente no resultado do trabalho das Polícias Civil e Militar na cidade. Um exemplo dessa interação, coordenada pela Secretaria de Ordem Pública, são os veículos clonados flagrados no cerco eletrônico com motoristas identificados e conduzidos à delegacia.

O município também afirmou que mantém, desde 2017, convênio com o governo do estado para reforçar a segurança na cidade com a contratação de policiais militares por meio do Programa Estadual de Integração na Segurança (Proeis). Além do patrulhamento preventivo na cidade, a Guarda Municipal também realiza ações de conscientização com alunos da rede pública de ensino – incluindo as escolas Romilda Nunes e Carlos Manoel próximas aos residenciais – sempre com foco na prevenção da violência, além de dar noções de cidadania e segurança no trânsito.

A Prefeitura pontuou que moradores das áreas mais vulneráveis da cidade são assistidos por meio de políticas públicas consolidadas no município, como os programas de Renda Básica de Cidadania (RBC) – com benefício mensal pago em moeda social Mumbuca – e de Amparo ao Trabalhador (PAT) entre outras frentes e iniciativas realizadas diariamente por diversos órgãos municipais.  A rede de atenção primária à saúde, por exemplo, atua nos residenciais Minha Casa, Minha Vida de Inoã e Itaipuaçu e no Bairro da Amizade, acompanhando cerca de 20 mil pessoas com ações de promoção à saúde que incluem, também, medidas de prevenção da violência contra crianças, adolescentes, mulheres e idosos por meio de palestras e aconselhamento.

Já a Secretaria de Assistência Social afirmou que desenvolve e coordena uma série de serviços nos condomínios residenciais Carlos Marighela, em Itaipuaçu, e Carlos Alberto Soares de Freitas, em Inoã, entre eles o serviço de proteção e atendimento integral à família, inscrições no Cadastro Único e em benefícios assistenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), o Auxilio Brasil e a Mumbuca, além do programa Saúde Justa, que amplia o acesso da população a medicamentos. Os Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) oferecem oficinas gratuitas para auxiliar a população na geração de renda. Entre as capacitações ofertadas estão as oficinas de reaproveitamento de alimentos, jardinagem, manicure, ginástica rítmica e corte de cabelo.

Outro serviço ofertado à população dessas áreas é o projeto “Qualifica Maricá”, que cadastrou este ano moradores dos residenciais para participação em diversos cursos gratuitos de qualificação profissional, entre eles pedreiro de alvenaria, mecânico de motocicletas, instalador hidráulico e assistente administrativo. Ao todo, 1.150 vagas foram ofertadas, 30% delas para beneficiários de programas sociais da prefeitura e para pessoas com deficiência.

matéria e fotos de Vitor D'Avila reproduzida do jornal A TRIBUNA de 21 de agosto de 2021