sábado, 20 de dezembro de 2025

Carta Aberta ao Sr. Antônio Grassi, presidente da MARÉ, Maricá, RJ

Carta Aberta ao Sr. Antônio Grassi, presidente da MARÉ, Maricá, RJ

c/c:  Sady Bianchin, secretário de cultura e utopias de Maricá, RJ

Maricá, 18/12/2025

Prezado,


Quando da inauguração do Museu Casa Darci Ribeiro, ouvi encantada, o prefeito Fabiano Horta anunciar que o museu faria parte de uma ‘tríade de museus’ onde a Maysa Matarazzo e a Beth Carvalho, seriam igualmente homenageadas, assim como o Darcy Ribeiro.

Ao ler recentemente a notícia de que os dois museus já estão a caminho, o coração ficou feliz principalmente por serem duas grandes mulheres que contribuíram grandemente para a Música Popular Brasileira.

Mas confesso, uma pulguinha atrás da orelha começou a se manifestar, ao ler que “A residência de Maysa Matarazzo, ícone da MPB e referência do protagonismo feminino na música, será transformada em um museu com enfoque feminista. O espaço pretende preservar a trajetória da cantora e promover debates sobre o papel das mulheres na cultura e na sociedade, oferecendo exposições e atividades educativas”. Grifo meu.

Aí, a minha caminhada antirracista me obriga a pensar que um enfoque feminista é muito mais que homenagear uma cantora transgressora com os costumes da sua época de cantora. Ela foi muito mais que isso, mas Maysa é branca, sobrenome da aristocracia paulista, com acesso a todas as facilidades e privilégios que a riqueza a pode proporcionar.

Então, é importante a gente refletir e constatar que o Movimento Feminista organizado, do qual Maysa não fez parte, deu uma guinada drástica e necessária, pois o protagonismo dele hoje, passa fundamentalmente pelas mulheres negras. Não se pode pensar hoje em feminismo sem as mulheres negras como protagonistas.

O que quero dizer, claramente, é que é preciso garantir a perspectiva, o recorte de raça nesse enfoque feminista que se pretende no museu.  Não pode ser um feminismo branco, ainda que a Maysa seja branca!

É preciso a gente entender que o feminismo negro avança cada vez mais, e vem fortalecendo em demasia a luta coletiva das mulheres, sejam pretas, pardas, amarelas, originárias e brancas. As mulheres negras hoje, são as grandes líderes do movimento feminista.

Maricá precisa, então, homenagear a Maysa e, ao dar um enfoque feminista, não pode reforçar a representatividade branca, porque as mulheres negras estão escrevendo, há muito, uma outra luta feminista, onde os direitos antes silenciados e esquecidos pelas elites brancas, têm sido trazidos de forma brilhante, potente, criativa e aguerrida pelas mulheres negras. 

Luta feminista tem gênero e tem raça e não podem ser separadas, sob pena de repetir o erro histórico, que criou um espaço de representatividade branca, excluindo as mulheres negras. Felizmente as mulheres negras estamos mudando essa história.

Chame as mulheres negras para conversar.

Me chama.

Há braços antirracistas,

Rute Noemi Souza    @rute.n.souza

PS: Os artistas de Maricá precisamos disso:  Renda Básica para desenvolvermos nossos ricos projetos em prol da cultura de Maricá.

Sigamos o exemplo da Irlanda:

https://obaraoj.blogspot.com/2025/12/irlanda-torna-permanente-renda-basica.html

Que tal?!