domingo, 26 de julho de 2026

MARICÁ SE DESPEDE DE 'PINDORAMA', MAIS UM MESTRE DA CULTURA QUE NOS DEIXA!


 Faleceu no sábado 25 de julho, mais um grande Mestre da Cultura maricaense, o querido PINDORAMA. Mestre da Cultura Popular e Afro-brasileira dedicou sua trajetória à arte, à cultura, à ancestralidade e valorização das manifestações do nosso povo.

A partida do Mestre Pindorama representa uma grande perda para a cultura, em especial para cultura de Maricá (que infelizmente não valorize como devia os grande 'astros', artistas, artesãos e fazedores de cultura da cidade) e quase sempre só os reverencia quando do seu desencarne.

A presença de Pindorama em diversas atividades culturais solo ou em coletivos, contribuíram para fortalecer a identidade cultural do município, valorizando a arte como instrumento de memória, pertencimento e resistência a transformação social.

Multiartista, percussionista e pintor, Pindorama fez da cultura um caminho de diálogo e de construção coletiva. Em suas diferentes expressões artísticas compartilhou saberes, histórias, experiências e vivências, deixando uma contribuição significativa para as novas gerações e para todos aqueles que compreendem a cultura como um direito e como uma força capaz de transformar vidas (embora nem todos da cultura municipal pratiquem o que falam e escrevem).

Com Obá e Padrinho do Bloco Afro Sociocultural Egbè Odara, foi uma importante referência na valorização da cultura afro-brasileira e da ancestralidade. Também apoiou o GRES Acadêmicos de Araçatiba (em Inoã) e o GRCES Diz que me Ama (em Santa Paula), reconhecendo no samba, no carnaval e nas manifestações populares, importantes expressões da identidade cultural de Maricá (embora a atual gestão do executivo municipal defenestre a verdadeira raiz do samba maricaense).

A diretoria do GRCES DIZ QUE ME AMA publicou a seguinte nota de pesar:

"O Café do Mestre

Hoje Inoã amanheceu menor.

Não porque lhe faltou um homem,

mas porque lhe partiu um território inteiro de memórias.

Mestre Pindorama seguiu.

Foi tocar percussão

e pintar aquarelas

na imensidão onde moram os encantados.

Ficamos nós.

Nós, que ainda sentimos

o cheiro do café recém-passado,

o banco da varanda,

a conversa longa,

o tambor repousado num canto

esperando apenas uma mão

que soubesse acordar o mundo.

Inoã...

Distrito tantas vezes tratado

como margem,

como periferia,

como lugar de pouca importância

pelos olhos de uma elite

que nunca aprendeu

que a cultura nasce primeiro

onde o povo resiste.

Mas nós sabemos.

Sabemos que cada terreiro,

cada roda,

cada samba,

cada boi,

cada capoeira,

cada canto,

cada artista,

cada mestra

e cada mestre

fazem deste chão

uma potência afro-brasileira.

Hoje a Política Nacional Aldir Blanc

reconheceu um Mestre.

Reconheceu em papel

o que o povo já sabia havia décadas.

Mas o tempo,

esse velho desobediente,

não esperou.

Que Fátima,

companheira de todas as caminhadas,

receba esse reconhecimento

como quem recebe um abraço

que também pertence a ela.

Porque ninguém atravessa uma vida inteira

dedicada à cultura

sozinho.

Fátima também carregou tambores invisíveis.

Também serviu o café.

Também acolheu artistas,

aprendizes,

sonhadores

e teimosos como nós.

Ainda sinto o cheiro daquele café.

E, no meio da fumaça,

escuto a voz do Mestre.

'Você é mestre.'

E eu respondia com desconforto.

Ele ria.

Como quem já conhecia

uma verdade

que eu ainda demorava para aceitar.

'Valdo...

isso é da sua alma.'

Nunca fomos homens

de pedir favores.

Falávamos de outra riqueza.

Falávamos de políticas públicas

que não fossem esmolas.

De espaços permanentes para arte.

De cultura como direito.

De saberes.

De fazeres.

De futuro.

Hoje confesso:

há muitos 'pqp',

muitos 'tnc'

e muitos 'fds'

gritando dentro do meu peito.

Há revolta.

Porque ainda perdemos mestres

antes que o Estado compreenda

o tamanho deles.

Mas a raiva não será a última palavra.

Ela será transmutada.

Virará verso.

Virará tambor.

Virará política.

Virará luta.

Porque foi isso

que Mestre Pindorama nos ensinou.

Os encantados não morrem.

Mudam de terreiro.

Mudam de frequência.

Mudam de palco.

E continuam soprando coragem

nos ouvidos de quem permanece.

Hoje o café ficou mais silencioso.

Mas a memória continua quente.

Obrigado, Mestre.

Da próxima vez que um tambor chamar,

saberei que é o senhor

ensinando às estrelas

que também existe samba,

existe boi,

existe capoeira,

existe aquarela

e existe Inoã.

Presente.

Sempre presente."

Da mesma forma, Valdo Lima, presidente da GRES ACADÊMICOS DO ARAÇATIBA e do Espaço Sociocultural Egbè Odara escreveu seu choro no papel:

"Vou me Sulear

Meu coração descompassou.

Não me falem para me nortear.

Carambaaaaaa!

Eu vou é me sulear.

Perdi um amigo.

Perdi um Mestre.

Homem de raízes na Terra do Dendê,

afro-inspirado,

que escolheu como nome artístico

a Terra do Urucum:

Pindorama.

Veio das terras quentes da Baixada Fluminense

para sulear em Maricá.

E, com a firmeza de quem sabia

que cultura não nasce nos gabinetes,

mas no terreiro, na rua e no abraço do povo,

repetia como quem planta um destino:

"Inoã é Chão de Cultura!"

Hoje,

ele suleou rumo às estrelas.

Porque somos da América do Sul.

Porque nossos caminhos também apontam para o Sul.

Porque nossa bússola é a ancestralidade,

e não o mapa de quem sempre quis nos ensinar

a olhar apenas para cima.

No mais...

Vá tomar no Sul!

Vá tomar uma boa bebida

neste nosso município tropical.

Vá celebrar a vida.

Vá encontrar os amigos.

Vá fazer gurufim,

porque os nossos velórios

também sabem cantar,

contar histórias

e transformar saudade em resistência.

Amanhã será dia de celebrar

em canto,

em tambor,

em memória.

Porque Mestre não morre.

Mestre muda de plano,

atravessa o Orun

e continua ensinando

quem permanece na caminhada.

Siga em paz, Mestre Pindorama.

O céu de Inoã ganhou uma nova estrela.

E nós seguiremos daqui,

fazendo da cultura

o caminho da resistência,

da beleza

e da liberdade."

Celebramos o legado deixado pelo Mestre Pindorama (tão pouco reverenciado em vida e tão agora lembrado em sua morte). Pindorama permanecerá vivo nos corações (e não apenas nas palavras), nas cores de suas obras, no som de sua música, na sua ancestralidade, na beleza de sua negritude, na leveza do seu sorriso, nos saberes que compartilhou a quem soube verdadeiramente aproveitar e na memória daqueles que tiveram a oportunidade de conviver com sua arte, sua generosidade e com sua pessoa impar.

Assim como toda a verdadeira cultura de Maricá, nós da PR PRODUÇÕES (através do jornal Barão de INohan, do Informativo CULTURARTE), do Fórum de Cultura Permanente de Maricá, do CCS Maricá (Conselho Comunitário de Maricá), da UMM (União das Mídias de Maricá), nos solidarizamos com os familiares do Mestre Pindorama, com os amigos, colegas, admiradores lastimando de coração enorme perda.

Pindorama foi sepultado no Cemitério Municipal de Maricá às 09 horas da manhã do dia 26 de julho. Descanse em paz!

(baseado em texto da Secretaria de Cultura exposto abaixo)