segunda-feira, 25 de maio de 2026

Monica Benicio cobra explicações após retirada de bandeira do Brasil de obra com referências a religiões de matriz africana na Câmara do Rio

 Vereadora pediu explicações à presidência da Casa após bandeira imersa em banho de ervas ser removida da obra. Peça, parte da exposição, fazia referência a rituais de cura de religiões afro-ameríndias. Casa afirma que elemento poderia gerar interpretação incompatível com normas relacionadas ao uso de símbolos nacionais em espaço público institucional

A vereadora Monica Benicio (PSOL) enviou um ofício à presidência da Câmara do Rio após uma obra em exposição no saguão do Palácio Pedro Ernesto, de iniciativa do mandato, com referências a religiões de matriz africana e indígena, ter sido alterada sem consulta prévia. No documento, encaminhado na sexta-feira (22/5), a parlamentar cobrou explicações sobre a retirada de uma bandeira do Brasil que integrava a instalação artística “Mãe-Preta Erveira”, da fotógrafa Marina Silva Alves (foto abaixo).

A peça faz parte da exposição “Amamentamos esse País”, montada no hall principal da Câmara durante o mês de maio, em alusão ao Dia das Mães. A obra, segundo Benício, traz homenagens a mães negras que perderam seus filhos pela violência estatal.

Segundo a parlamentar, a bandeira havia sido colocada em uma bacia com ervas, em referência a rituais de cura ligados a religiões de matriz afro-ameríndia, como a Umbanda, o Candomblé e a Jurema Sagrada. De acordo com a vereadora, o gabinete foi procurado extraoficialmente pela presidência na quarta-feira (20/5) com um pedido para retirada da bandeira da instalação após reclamações de parlamentares que teriam considerado a obra ofensiva.

Segundo Monica (foto abaixo), ainda no mesmo dia foram enviados esclarecimentos à presidência explicando o contexto simbólico da peça e o significado religioso e cultural da composição. A bandeira, no entanto, acabou sendo retirada da obra no dia seguinte.

No ofício enviado, a vereadora pede esclarecimentos sobre a remoção do item, a apuração das circunstâncias da retirada e a restituição da bandeira à instalação artística.

A retirada da bandeira da obra é um absurdo. Essa atitude só demonstra como parte da política nacional ainda acha normal violentar a população negra, a diminuir e desrespeitar a cultura preta, que ao fim e ao cabo, é a origem do que hoje conhecemos como identidade brasileira”, declarou Monica Benício (foto abaixo).

Em resposta, a Câmara Municipal do Rio afirmou que “respeita plenamente a liberdade de manifestação artística e cultural”. A Casa informou, porém, que teria havido uma alteração posterior na obra sem o conhecimento do Centro Cultural do parlamento, setor responsável pela curadoria das exposições no Palácio Pedro Ernesto (foto abaixo).

Segundo o posicionamento, por conta da alteração, houve entendimento interno de que um dos elementos da instalação “poderia gerar interpretação incompatível com normas relacionadas ao uso de símbolos nacionais em um espaço público institucional”, motivo pelo qual foi realizada uma “adequação pontual”.

O QUE DIZ O COMUNICADO

A Câmara Municipal do Rio respeita plenamente a liberdade de manifestação artística e cultural. No caso da exposição em questão, porém, houve alteração posterior em uma obra sem conhecimento do Centro Cultural da Câmara, setor responsável pela curadoria das exposições. Diante da modificação, houve entendimento interno de que um dos elementos da instalação poderia gerar interpretação incompatível com normas relacionadas ao uso de símbolos nacionais em um espaço público institucional, motivo pelo qual foi feita uma adequação pontual”, diz o comunicado.

O QUE DIZ AS NORMATIVAS SOBRE O RESPEITO AOS SÍMBOLOS NACIONAIS

O respeito aos símbolos nacionais é um dever cívico fundamental que fortalece a identidade, a soberania e a união do país. No Brasil, eles representam a história e os valores democráticos, devendo ser reverenciados por todos os cidadãos, independentemente de posições políticas. 
Os Quatro Símbolos Nacionais Oficiais
Segundo o Artigo 13 da Constituição Federal e a Lei nº 5.700, o Brasil possui quatro símbolos oficiais:
  • Bandeira Nacional: Representa a soberania, a pátria e a união do povo.
  • Hino Nacional: Expressão de amor à pátria e exaltação da história brasileira.
  • Armas Nacionais (Brasão): Usado para identificar os poderes da República e documentos oficiais.
  • Selo Nacional: Utilizado para autenticar atos do governo e documentos oficiais. 
Como o Respeito é Aplicado na Prática
A legislação brasileira determina diretrizes claras de conduta: 
  • Exibição correta: A Bandeira Nacional deve ser tratada com dignidade. É proibido usá-la como vestimenta (camisetas, cangas, etc.), como pano de mesa ou em painéis de inauguração.
  • Conservação: Apresentar a bandeira rasgada, desbotada ou em mau estado de conservação é considerado desrespeito.
  • Hino e Cerimônias: Durante a execução do Hino Nacional ou o hasteamento da Bandeira, a postura esperada é de respeito e silêncio. 
Por que o respeito importa?
Esses emblemas servem como um elo entre o passado, o presente e o futuro da nação. Utilizá-los corretamente e honrá-los nas cerimônias adequadas demonstra respeito pela própria história e pelos direitos e deveres da cidadania. 
QUEM É A FOTÓGRAFA MARINA ALVES
Marina S. Alves
Marina, 38 anos, nasci em Belo Horizonte - Minas Gerais, mas sou cria da Zona Sul do Rio de Janeiro. Fotógrafa educadora, curadora independente, artvista, praticante de Capoeira Angola e articuladora do espaço multidisciplinar Ateliê Casa 3 localizado em Inoã-Maricá. Entro na militância no momento em que me descubro mulher negra há mais de 10 anos atrás. A partir desse momento começo a desenvolver projetos dentro do campo de empoderamento das populações marginalizadas. Dentre eles atuei no projeto A Cor da Cultura, onde participei como formadora com educadores das Escolas Públicas e Privadas em Educação das Relações Étnico-raciais e mais tarde no Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (CEAP) quando coordenei um grupo de formação de professores na temática das relações raciais em diferentes distritos do Rio de Janeiro. Na fotografia, atuo como fotógrafa de eventos, principalmente de eventos produzidos pelos movimentos sociais de Mulheres e Movimentos Negros, e no cinema trabalho como Operadora de câmera, Diretora de fotografia e Assistente de câmera. Fui diretora de Fotografia do longa-metragem Sementes: Mulheres Pretas no poder (Dir. Julia Mariano e Ethel Oliveira), SobreNós (Dir. Naína de Paula - Globoplay) e dos curtas Um grito parado no ar de Leonardo Souza - LabCurta) e do Que minhas únicas cicatrizes sejam de Sk8, esse último vencedor do Júri técnico no Festival Internacional Fazendo Gênero. Jurada do concurso de fotografia Prix da Aliança Francesa durante dois anos. Atuei como videomaker na equipe de Photo & AV da Netflix na série Os quatro da Candelária e em meu último trabalho fui 1a assistente de câmera no longa-metragem ficcional Percursos dirigido pela cineasta Sil Azevedo. Foi coordenadora da Oficina de Audiovisual do Programa Cultura de Direitos oferecido pela Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de Maricá e integro a equipe de curadoria do FotoRio desde 2023.  
Amamentamos esse país - 2019
Fotografia digital 
Nasce da reflexão sobre como a arte pode servir como resposta política para os assassinatos de jovens em prol de uma interminável “guerra às drogas” declarada pelo Estado Brasileiro contra a população em situação mais vulnerável. Sabemos a quem tal guerra é verdadeiramente declarada. Como não lembrar das mães pretas que tiveram seus filhos, se não assassinados, retirados de seus seios de forma tão precoce para alimentar os filhos dos barões? Como não permitir que essa história de passado-presente cheia de nuances e continuidades seja silenciada ou enviesada pela grande mídia, que faz a manutenção da lógica do sistema pautado pelo racismo estrutural? Este ensaio fotográfico busca valorizar outro ponto de vista. Estamos concebendo uma obra de arte que conta um pouco das histórias desses filhos pretos separados de suas mães pela estrutura racista que caracteriza e mantém passado e presente nesse país. É urgente voltarmos nossos olhos para essas Vidas. Quem foram eles? O que sonhavam? A quem interessa ouvir essas histórias interrompidas por tantas gerações? 
Este ensaio buscou acionar a partir do registro dos objetos guardados dos filhos que já não estão mais vivos histórias sobre a vida e trajetórias desses meninos e suas mães pretas.

A mostra segue em exibição no hall do Palácio Pedro Ernesto  até a próxima segunda-feira (29).