domingo, 7 de setembro de 2014

DELAÇÃO DE COSTA PODERÁ ENTERRAR DEFINITIVAMENTE O PT

Como a delação de Costa impacta a corrida eleitoral


Denúncias atingem o governo em cheio e também podem prejudicar candidatura de Marina Silva. Tucanos veem chance de reação.
As quatro últimas semanas antes do primeiro turno da eleição presidencial devem ser ainda mais movimentadas depois que Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras, firmou um acordo de delação premiada. Conforme revelou VEJA nesta semana, ele citou os políticos beneficiados pelo esquema de corrupção na estatal em depoimento à Polícia Federal. A investigação sobre o escândalo da Petrobras pode alterar o panorama justamente quando a campanha entrava no momento de consolidação dos votos.
Em acordos de delação premiada, o depoente se compromete a não omitir qualquer informação relevante de que dispuser. E precisa sustentar as acusações que faz. Disso depende o abatimento da pena a que ele será submetido.
Evidentemente, os políticos citados nominalmente por Costa como beneficiários do esquema devem ser os mais afetados: isso inclui o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB), que disputa o governo do Rio Grande do Norte.
O delator, e apesar de tudo, um futuro herói da nação
Mas a crise se coloca, sobretudo, no caminho da reeleição da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição pelo PT. Paulo Roberto Costa foi nomeado para o cargo na Petrobras por Lula, em 2004, e ficou no cargo até 2012 – já no governo atual, portanto. Além disso, o tesoureiro do PT, João Vaccari, é citado pelo ex-diretor como uma das pessoas que captaram dinheiro no esquema. Praticamente todos os citados no escândalo são aliados da presidente.
A revelação de detalhes sobre os desvios em escala industrial pode atingir a popularidade de Dilma. Eles são a confirmação de que a crise na Petrobras não é fruto de acidente ou deslize, mas resultado de uma política consciente de loteamento de cargos-chave da administração da companhia.
Como Paulo Roberto Costa também mencionou o nome do ex-governador Eduardo Campos, ex-governador de Pernambuco e candidato à presidência morto em 13 de agosto, entre os envolvidos no esquema, a campanha de Marina Silva pode ser afetada. No mínimo, a candidata do PSB deve ficar impossibilitada de explorar o caso eleitoralmente.
Ao tucano Aécio Neves, o episódio se desenha como uma oportunidade – talvez a última – de reagir nas pesquisas de intenção de voto. É nisso que os tucanos apostam agora.
Já na manhã deste sábado, os três candidatos demonstraram como pretendem lidar com o caso. Aécio Neves divulgou um vídeo em que chama o episódio de ‘mensalão 2’. Dilma adotou um discurso cauteloso: "Eu gostarei de saber direitinho quais são as informações prestadas nessas condições e te asseguro que tomarei as providências cabíveis", disse a candidata. Marina Silva tratou de se desvincular do episódio e deve deixar que o partido responda os questionamentos sobre o escândalo.
O professor João Paulo Peixoto, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, acredita que o PSDB pode se beneficiar das revelações. O caso, segundo ele, dá uma última esperança a Aécio de se consolidar como a alternativa mais viável que o PT e chegar ao segundo turno. "Eu tendo a acreditar que o PSDB vai crescer com a transformação das outras candidaturas em alvo", diz Peixoto. Entretanto, o professor avalia que ainda é cedo para avaliar se Aécio Neves pode ultrapassar uma de suas adversárias na corrida presidencial.
As últimas pesquisas mostram que Dilma Rousseff tem pouco mais de um terço do eleitorado. É aproximadamente o potencial de votos mínimo do PT em eleições presidenciais: são os petistas históricos, lulistas convictos e beneficiados pelo Bolsa Família – que dificilmente mudariam seu voto. Por isso, o eleitorado de Marina Silva se apresenta como o campo prioritário para as ofensivas de Aécio.
Nos próximos dias, portanto, conforme novos detalhes do escândalo surgirem e as informações se consolidarem na cabeça do eleitor, a turbulenta eleição de 2014 pode sofrer novas guinadas. "A instabilidade do quadro político brasileiro é evidente", diz o professor da UnB.