quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Enchentes no Nepal e no Tibete: tragédia deixou mortos e centenas de desaparecidos (vídeo - imagens fortes)

 


Uma enchente repentina atingiu a fronteira entre o Nepal e o Tibete na manhã da quarta-feira (26/8), deixando pelo menos 95 mortos e 93 feridos no lado nepalês, segundo autoridades locais. O balanço foi atualizado às 17h25 no horário local (8h40 no horário de Brasília).

Entre os desaparecidos estão quase 579 viajantes, sendo 466 estrangeiros e 61 nepaleses, segundo a atualização mais recente do Conselho de Turismo do Nepal.

Os estrangeiros são de 28 países diferentes. Há 133 desaparecidos da Índia, 54 dos Estados Unidos e 33 do Reino Unido.

Uma lista preliminar divulgada também incluía 17 malaios, quatro sul-africanos, um australiano e um holandês — e outras dezenas de pessoas cuja nacionalidade ainda não foi confirmada.

Segundo o NTB, a maioria seguia rumo ao Kailash Mansarovar, no Tibete, e a rota afetada também dá acesso ao Parque Nacional de Langtang e ao lago sagrado de Gosainkunda.

O Itamaraty afirmou que, até o momento, não há informações sobre brasileiros desaparecidos.

A mídia estatal chinesa CCTV também relatou "grandes perdas de vidas" no lado tibetano da fronteira, controlado pela China.

Impactos no Nepal

A polícia do Nepal divulgou um detalhamento dos 95 corpos encontrados após a enxurrada. O distrito de Chitwan registrou o maior número de mortes, 33. Essa informações foram enviados às 10 horas (horário de Brasília).

Nos distritos atingidos, como Rasuwa, Nuwakot e Dhading, houve destruição de estradas, pontes, redes de comunicação e infraestrutura hidrelétrica, incluindo danos ao projeto hidrelétrico de Trishuli.

A polícia diz que está trabalhando para levar moradores de áreas de risco para locais seguros e realizar operações de resgate e busca.

Militares, policiais e trabalhadores do setor de energia estão entre as centenas de desaparecidos após as devastadoras enxurradas no Nepal.

São 44 militares, 28 policiais, 13 policiais armados da força paramilitar e 60 trabalhadores de projetos de energia entre os desaparecidos, além de funcionários da alfândega e da imigração.

O primeiro-ministro, Balendra Shah, afirmou que o país está "em choque e profundamente abalado" pela perda de vidas e pelos danos causados pelas enxurradas.

Em uma publicação nas redes sociais, ele classificou o desastre como "repentino" e "de grandes proporções" e prestou condolências às vítimas e suas famílias.

Shah também afirmou que o governo mobilizou imediatamente todos os recursos disponíveis para as operações de resgate.

Ao lado da China e da Índia, o Nepal abriga oito das montanhas mais altas do mundo, incluindo o Monte Everest, conhecido localmente como Sagarmatha.

Como um dos países mais pobres do mundo, a economia do Nepal depende fortemente de ajuda externa e do turismo.

O que causou a enchente

Até o momento, a principal hipótese é que uma avalanche de gelo tenha dado início a uma sequência de eventos.

Liz Stephens, professora de Risco Climático e Resiliência na Universidade de Reading, explica que grandes volumes de gelo e rocha podem ter aumentado o nível do rio e provocado uma forte elevação repentina da água.

A avalanche também pode ter bloqueado temporariamente o rio, formando uma espécie de barragem. Quando essa barreira se rompeu, uma grande quantidade de água e sedimentos pode ter avançado rio abaixo.

Um terremoto também foi registrado na região por volta das 8:37h (horário local), mas ainda não está claro se ele provocou a avalanche ou contribuiu de outra forma para as enchentes.

Mais cedo, o ministro das Relações Exteriores do Nepal, Shishir Khanal, afirmou que informações preliminares indicavam que o terremoto havia provocado uma avalanche — que, por sua vez, desencadeou as enchentes repentinas. Khanal disse que as informações ainda estão sendo verificadas.

O desastre é considerado o mais devastador no Nepal desde o terremoto de 2015, que matou quase 9 mil pessoas.

Os distritos de Rasuwa e Nuwakot, às margens do rio Bhotekoshi, estão entre os mais afetados. Estradas, pontes, usinas hidrelétricas e outras infraestruturas importantes foram destruídas.

Autoridades locais confirmaram pelo menos 95 mortos, mas ainda não há uma estimativa precisa dos danos. Um porta-voz disse à BBC que a dimensão da destruição está "além da imaginação".

Resgates em andamento

As equipes de resgate correm contra o tempo para encontrar sobreviventes.

Um porta-voz do Exército do Nepal, Rajaram Basnet, disse à BBC que 88 sobreviventes já haviam sido resgatados, com tropas tentando resgatar outras 115 pessoas na vila de Mailung. Quinze helicópteros foram mobilizados para as operações de busca e resgate.

O Ministério do Interior do Nepal relatou grandes perdas de vidas e propriedades em Timure, Syabrubesi e Betrawati.

Autoridades sul-coreanas informaram que oito cidadãos do país, que trabalhavam na construção de uma usina hidrelétrica na região, estão "incomunicáveis", enquanto outros dez sul-coreanos aguardam resgate. O governo nepalês enviou um helicóptero para socorrê-los.

A embaixada dos EUA no Nepal relatou enchentes severas em Rasuwa e emitiu alertas para comunidades ao longo dos rios Bhote Koshi, Trishuli e Narayani.

A emissora estatal chinesa CCTV informou que o deslizamento de terra deixou "grandes perdas" em um centro comercial no lado tibetano da fronteira entre China e Nepal.

Sonam Dorjee, um guia de trekking para turistas estrangeiros, está com uma irmã desaparecida. Eles vivem na aldeia de Syafru Besi, em Rasuwa, no Nepal, que foi atingida pela inundação às 9h na hora local (0h em Brasília).

Sonam tinha saído uma hora antes para ir de carro a Katmandu, capital do país. Ele diz que ouviu o som das cheias enquanto se afastava da aldeia de carro.

"Parece um terremoto", diz. "A minha casa desabou... Vi uma fotografia."

Ele descreve a inundação como "repentina e devastadora".

"Muitos sobreviventes ficaram agora sem casa e precisam de resgate e evacuação de emergência, bem como de alimentos, alojamento temporário e apoio médico."

Ele reza para que a irmã, Dechen Tamang, possa ser encontrada com vida. Além de Dechen, o marido dele e vários outros familiares também estão desaparecidos. "Há uma hipótese de 10% que nos dá esperança", afirma.

Resposta da China

O presidente chinês Xi Jinping ordenou um esforço de resgate "total" para localizar os desaparecidos no Tibete, além de pedir reforço no monitoramento e nos sistemas de alerta antecipado para evitar novos desastres. O governo chinês também determinou o envio de equipes à região para operações de busca e resgate.

Yee Liang, empresário chinês baseado em Kathmandu, disse à BBC que sua empresa de logística tem sete caminhões na área atingida, todos com motoristas nepaleses, e que perdeu contato com todos eles por falta de sinal. Segundo ele, não havia alerta prévio, embora deslizamentos ocasionais fossem comuns na estação chuvosa — desta vez, disse, a situação "parece muito mais grave".

Já Guan Daoxuan, da província chinesa de Sichuan, relatou à BBC ter perdido contato com a esposa, que trabalha para uma construtora estatal envolvida em obras de estradas e pontes no Tibete. Segundo ele, autoridades nepalesas tentaram enviar um helicóptero para inspecionar a área, mas ventos fortes dificultaram o acesso.

O que mostram as imagens verificadas

A equipe de verificação da BBC (BBC Verify) confirmou vídeos que mostram uma ponte sendo arrastada pela correnteza e prédios de vários andares desabando com a força da água, na região de Trishuli Bazaar, distrito de Nuwakot, cerca de 25 km a noroeste de Kathmandu.

As imagens mostram o rio Trishuli aumentando rapidamente de volume e velocidade, carregado de sedimentos, até que a ponte se solta de suas estruturas e é levada pela correnteza — segundos depois, vários prédios desabam.

Um segundo vídeo, filmado no mesmo local, mostra o cenário após a enchente: o nível do rio consideravelmente mais alto, árvores e construções anteriormente visíveis já desaparecidas, e diversos imóveis próximos à margem destruídos, parcialmente desmoronados ou cobertos de lama.

Imagens de satélite comparando a região antes e três dias depois da enchente também mostram o rio Trishuli visivelmente mais volumoso e água espalhada pelas áreas ao redor.