terça-feira, 1 de outubro de 2019

OUTUBRO ROSA - prevenção do câncer de mama de janeiro a janeiro


O câncer de mama – e o câncer de forma geral – não tem uma causa única. Seu desenvolvimento deve ser compreendido em função de uma série de fatores de risco, alguns deles modificáveis, outros não.

O histórico familiar é um importante fator de risco não modificável para o câncer de mama. Mulheres com parentes de primeiro grau (mãe ou irmã) que tiveram a doença antes dos 50 anos podem ser mais vulneráveis.

Entre outros fatores de risco não modificáveis estão o aumento da idade, a menarca precoce (primeira menstruação antes dos 11 anos de idade), a menopausa tardia (última menstruação após os 55 anos), nunca ter engravidado ou ter tido o primeiro filho depois dos 30 anos.

Já os fatores de risco modificáveis bem conhecidos até o momento estão relacionados ao estilo de vida, como o excesso de peso e a ingestão regular (mesmo que moderada) de álcool. Alterá-los, portanto, diminui o risco de desenvolver a doença. No entanto, a adoção de um estilo de vida saudável nunca deve excluir as consultas periódicas ao ginecologista, que incluem a mamografia anual a partir dos 40 anos.


Sintomas
O sintoma mais comum de câncer de mama é o aparecimento de um caroço. Nódulos que são indolores, duros e irregulares têm mais chances de ser malignos, mas há tumores que são macios e arredondados. Portanto, é importante ir ao médico. Outros sinais de câncer de mama incluem:

- inchaço em parte do seio, caroço nas axilas;
- irritação da pele ou aparecimento de irregularidades, como covinhas ou franzidos, ou que fazem a pele se assemelhar à casca de uma laranja;
- dor no mamilo ou inversão do mamilo (para dentro);
- vermelhidão ou descamação do mamilo ou pele da mama;
- saída de secreção (que não leite) pelo mamilo


Detecção precoce
O câncer de mama é uma doença grave, mas que pode ser curada. Quanto mais cedo ele for detectado, mais fácil será curá-lo. Se no momento do diagnóstico o tumor tiver menos de 1 centímetro (estágio inicial), as chances de cura chegam a 95%.


Quanto maior o tumor, menor a probabilidade de vencer a doença. A detecção precoce é, portanto, uma estratégia fundamental na luta contra o câncer de mama. Se a detecção precoce é a melhor estratégia, a principal arma para sair vitoriosa dessa luta é a mamografia, realizada uma vez por ano em toda mulher com 40 anos ou mais. É a partir dessa idade que o risco da doença começa a aumentar significativamente. A mamografia é o único exame diagnóstico capaz de detectar o câncer de mama quando ele ainda tem menos de 1 centímetro. Com esse tamanho, o nódulo ainda não pode ser palpado. Mas é com esse tamanho que ele pode ser curado em até 95% dos casos.

AUTO EXAME
Durante muito tempo, as campanhas de conscientização para o câncer de mama divulgaram a ideia de que o autoexame das mamas, baseado na palpação, era a melhor forma para detectá-lo precocemente. Mas o tempo passou, a medicina evoluiu e as recomendações mudaram.

O autoexame continua sendo importante – mas de forma secundária. Quando o tumor atinge o tamanho suficiente para ser palpado, já não está mais no estágio inicial, e as chances de cura não são máximas.

Infelizmente, ainda há muita desinformação no Brasil. Uma pesquisa realizada em 2008 pelo Datafolha a pedido da Femama revelou que para 82% das mulheres o autoexame é a principal forma de diagnóstico precoce. Apenas 35% apontaram a mamografia.

A incidência do câncer de mama vem crescendo no mundo todo, mas, quando se trata do número de mortes causadas pela doença, as tendências variam. Em países desenvolvidos, a mortalidade vem caindo lentamente, ao passo que nos países em desenvolvimento, como o Brasil, registra-se um gradativo aumento.

Pelo menos parte dessa diferença se deve ao diagnóstico precoce, ainda precário no nosso país. Entre 1999 e 2003, quase metade dos casos de câncer de mama foram diagnosticados em estágios avançados, segundo estudo do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Especialistas estimam que mortalidade por câncer de mama em mulheres entre 50 e 69 anos poderia ser reduzida em um terço se todas as brasileiras fossem submetidas à mamografia uma vez por ano.


DIREITO DE TODAS
O Brasil é um país de desigualdades, que são ainda mais evidentes na assistência à saúde. O acesso à mamografia é um exemplo típico, infelizmente. O número de brasileiras que realizam o exame anualmente ainda é muito baixo. As que dispõem de planos de saúde privados têm mais facilidade, mas representam uma pequena parcela da população. A grande maioria depende do Sistema Único de Saúde, em que as dificuldades são bem conhecidas, havendo muitas diferenças de região para região.
Até recentemente, o Ministério da Saúde recomendava que a mamografia anual fosse realizada em mulheres pelo SUS a partir de 50 anos. Mas esse limite de idade mudou com a efetivação da Lei Federal nº 11.664/2008, em vigor a partir de 29 de abril de 2009, garantindo o benefício a partir dos 40 anos.

A Lei Federal nº 11.664/2008 foi uma conquista da Femama e representa um grande avanço na luta contra do câncer de mama. No entanto, ela precisa ser colocada em prática de norte a sul do País.

SELO DE QUALIDADE
Outro problema que prejudica a detecção precoce do câncer de mama é a má qualidade das mamografias feitas no País. Numa pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), 77% dos exames foram rejeitados por problemas técnicos relacionados à qualidade da imagem, ao posicionamento incorreto das pacientes e ao uso inadequado dos equipamentos. O resultado é, além de tumores que passam despercebidos e de biópsias desnecessárias, o grande número de mamografias que precisam ser refeitas.

Para combater o problema, o Colégio Brasileiro de Radiologia, em parceria com o Inca e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), criou, em 2005, um programa de certificação de mamógrafos, que conta com o apoio da Femama e do Instituto Avon.

Os mamógrafos certificados contam com um selo de qualidade, mas eles ainda são minoria. Até o fim de 2010 eram pouco mais de 600, de um total de cerca de 3,2 mil em todo o País. É importante que tantos os médicos quanto as pacientes procurem saber se os mamógra-fos dos serviços utilizados têm o selo de qualidade.

O PERIGOSO CÂNCER DE MAMA EM ADOLESCENTES
A  estudante paulistana Sheila Araújo Martins, 16 anos, descobriu um câncer raro na mama direita em 2007, ao fazer uma consulta de pré-natal em um posto de saúde da Cidade Dutra (zona sul de São Paulo) no terceiro mês de gravidez. Ela tinha 14 anos na época, quando sentiu um caroço na mama ao tomar banho.

Ao avisar o médico, foi encaminhada ao departamento de Oncologia do hospital Pérola Byinton, em São Paulo (SP), onde foi feita uma biópsia. Cinco meses depois, quando estava no oitavo mês de gravidez, o resultado do câncer foi confirmado. O tumor já estava com 11cm, o que exigiu que a cirurgia para a retirada do câncer fosse feita imediatamente. A mãe de Sheila, a empregada doméstica Maria Lucinéia de Araújo, 39 anos, entrou em choque.

- O desespero foi muito grande, não dá para falar a reação, porque no meu caso ela era uma menina de 14 anos, grávida, correndo risco de perder a mama.

Sheila foi transferida para o hospital São Paulo, onde fez a cirurgia de retirada do tumor. Ao saber da cirurgia, a grande angústia de Sheila era a possível perda de um seio.

- [Assim que soube da notícia] Tive medo por tudo. Medo de tirar a mama, porque na minha idade, sem mama, eu ia me sentir diferente. Não tive medo do pior, porque minha mãe me aconselha muito, e nem pelo bebê, porque fizeram os exames e eu sabia que ele estava todo formado.

A doença corresponde entre 2% e 3% de todos os tumores malignos registrados no país. A leucemia, o linfoma e os tumores cerebrais são os tipos de câncer mais comuns nessa faixa etária. A pesquisa indica ainda o surgimento de aproximadamente 10 mil casos de câncer infanto-juvenil a cada ano no país a partir do biênio 2008/2009. O levantamento registrou dados entre 2001 e 2005 em 20 cidades em todas as regiões brasileiras.
O oncologista pediátrico do hospital Santa Marcelina, em São Paulo (SP), e presidente da Sobop, Renato Melaragno, explica que a mortalidade dos jovens pelo câncer passou a ser maior no país ao longo dos anos, já que doenças infecciosas como o sarampo têm sido erradicadas.
O câncer de mama, em especial, é considerado raro entre adolescentes, mas o número de casos vem crescendo a cada ano. Ele atinge pelo menos uma em cada 100 mulheres diagnosticadas com câncer de mama no Brasil entre os 13 e 16 anos - 1% das adolescentes brasileiras - segundo o diretor do departamento de Mastologia do hospital Pérola Biynton, em São Paulo (SP), Luiz Henrique Gebrin. O médico diz que, nesses casos, o agravante é que o câncer nos adolescentes costuma ser mais agressivo do que nos adultos, e são mais difíceis de serem diagnosticados.
- Na maioria dos casos, ele é descoberto casualmente pela formação de um caroço na axila ou por um nódulo apalpado na mama. Mas nove entre dez deles são tumores benignos. Entre as mulheres na faixa dos 20 a 30 anos, o índice sobe para dez casos em cada 100 (10%), pois à medida que se envelhece, aumentam as dificuldades de se defender do câncer.


Mamografia, não!
Diferentemente do câncer em adultos, em que se leva em conta aspectos do comportamento como fumo, alcoolismo, alimentação, sedentarismo e exposição ao sol, a medicina ainda não conseguiu estabelecer os verdadeiros fatores de risco do câncer pediátrico. Por isso, a orientação é tratá-lo o quanto antes com quimioterapia ou mesmo cirurgia, até em crianças, dependendo do caso.

- O câncer na mulher jovem é mais agressivo, de crescimento mais rápido e de propensão genética maior. Isso porque o problema é hereditário, mas ainda não sabemos as causas. Ao menos 30% delas acabam morrendo em cinco anos, porque os casos são muito agressivos. Quando [os casos muito agressivos] ocorrem, a chance de morte é quase certa, pois não respondem à quimioterapia.

Mesmo diante desses números, o médico não aconselha as jovens a fazerem mamografia por prevenção, pois, segundo ele, o exame pode trazer malefícios futuros.


- O contato com a radiação da mamografia pode acarretar um câncer depois de alguns anos. A outra razão é porque a mamografia é ineficiente em uma mulher jovem. O exame não é capaz de identificar um nódulo porque a quantidade de gordura ao redor da glândula é muito pequena, e a mamografia só consegue detectá-los através da gordura. Por isso, é indicado para mulheres mais velhas.

Nas jovens, o diagnóstico fica ainda mais difícil por outras duas razões: suas mamas estão em formação, ou seja, qualquer mudança é encarada como um processo, e jovens só costumam ir ao médico quando se sentem realmente doentes. No último caso, se o nódulo já estiver avançado, o tratamento tende a ser mais duro. O ideal é consultar o ginecologista assim que for percebida qualquer anormalidade na mama, orienta Gebrin.

Mulheres negras têm mais chances de desenvolver a doença


> Mulheres negras tendem a ter alterações genéticas que favorecem o aparecimento do câncer de mama antes do 40 anos de idade.
A partir de pesquisas na Universidade de Buffalo, Estados Unidos, realizadas entres 2009 e 2011, identificou se anomalias genéticas no DNA de 106 famílias afrodescendentes. Entre as anomalias, os genes BRCA1 e BRCA2, conhecidos por aumentar  a incidência de câncer de mama nas mulheres.

> As mulheres negras estão mais sujeitas ao surgimento do câncer triplo-negativo.
O câncer chamado Triplo Negativo é duas vezes mais comum em mulheres negras. É um tipo mais agressivo, de difícil de identificação e que tem mais facilidade em se espalhar pelo corpo (veja matéria completa ao lado, na coluna ANTENADAS, com Monica Brione).

> Mulheres negras e pobres são as que mais sofrem com a falta de informação e tratamento tardio da doença.
Dada a relação direta entre cor e pobreza, as mulheres negras normalmente dependem do SUS (Sistema Único de Saúde) para atendimento e diagnóstico. As campanhas de prevenção não chegam com facilidade e instruções sobre o auto exame também são distantes, isso é resultado da falta de instrução que envolve a população negra de forma geral.